quarta-feira, 22 de abril de 2015

Teatro de marcas

Girou?
por maneco nascimento

A noite do dia 20 de abril recebeu, a partir das 20 horas, no palco do Theatro  4 de Setembro, um espetáculo fluminense, da Companhia Cortejo (RJ). + um Palco Giratório que se nos chega para apreciar-se o teatro realizado nesse território brasileiro que movimenta a cena nacional.

Da cidade de Três Rios, interior do Rio de Janeiro, a peça girou por aqui com seu teatro de dinâmicas de marcas bem ensaiadas e atores, um casal, empertigados dentro da ciranda de uma relação que se estabelece entre o antes e o depois da chuva.
(Antes da Chuva, de Rodrigo Portella/divulgação)

 [“Antes da Chuva” nasceu de uma pesquisa feita pelos atores da companhia Cortejo, e gira em torno do amor inocente e intenso de um jovem rapaz por uma mulher mais velha. Eles habitam um povoado ribeirinho cada vez mais deserto e decadente, lugar este que, no passado, teria sido alvo de exploradores estrangeiros. A base da obra de García Márquez se mistura às histórias e experiências vividas pelos integrantes do grupo, a partir de suas memórias familiares.] (http://tribunadonorte.com.br/Publicação: 2015-04-16 12: 00//acesso 22 abril 2015 às 8h57)


“Antes da Chuva” revigora bom texto que empenha narrativa das personagens divididas às falas, entre narradoras de terceira pessoa e convivas intrínsecas em diálogo intenso e quente de primeira pessoa.

A dramaturgia, de construção textual e de cena, tem passagem de embasamento, em obra de Garcia Márquez, ajustada nas histórias e experiências vividas pelos integrantes do Grupo, no roldão das memórias afetivas familiares, informa a Cia. Cortejo.

Com classificação a 14 anos, a peça reflete o drama adolescente de Aramis por Ana em uma casa “abandonada” em que a moça vive com a avó. O menino de 11 anos é “constrangido” pela garota que quer vê-lo nu, enquanto secaria a roupa daquele, molhado de chuva. Memórias adolescentes e fantasias se imbricam na narrativa que envolve fuga para destino que os conforte fora da “ilha” que estão aprisionados.

Inteligente deslizar atomizado em sentimentos da carpintaria textual que vai confluir reforço melhor na atriz Bruna Portella, com + maturidade de desenvolver os choques das personagens interligadas por atração e fatalidade melodramática de encontros, variação sobre o mesmo tema, em embate que confronta com o linguismo regional, sobrevalorizado, amortecedor da possível maior abrangência de construção da personagem nas falas do ator, Luan Vieira, em sua performance de contraponto com a atriz.
(Luan Vieira e Bruna Portella em, Antes da Chuva, direção de Rodrigo Portella e Leo Marvet/divulgação)

A dramaturgia de cena percorre tempos de corpos que falam do entendimento dos signos que permeiam o drama, despem as intenções do casal em conflito de atração e renúncia do amor a ser alimentado.

No entanto, o “distanciamento” imprimido pelos intérpretes derrapa na falha trágica de desvio da construção do (s) ator (es) ao construtivismo da personagem. Não diria que é opera soap eletrônica, talvez empenho de naturalidade como metodologia de cena que ainda incorre na efeméride da forma.

O texto, um intertextual da natureza, em que nada se cria, tudo se transforma (Lavoisier), margeia discussão de relações amorosas presentes em bons e diversos exemplos a este tema. Bonito de ver esse vigor, da dramaturgia textual, querendo ganhar maior impacto nas vozes dos intérpretes e, sobreviver pelo próprio discurso amalgamado nas falas sociais, transigidas na literatura dramática criada.

A cenografia, imposta na arte do ator, se instaura na luz de claros e escuros que significam os sentimentos expiados. Elementos de cena que contrarregam a narrativa, um livro de histórias, ou de cartas ridículas, rasgadas, que também faz as vezes de máscara da justiça e de convenção social em diálogo com o cidadão comum.

Na metalinguagem, os intérpretes revisam exercícios de primeiras lições de iniciação teatral, na alegria da narrativa, a máscaras de mãos e rosto, mãos em rosto, como pedagogia do riso e da farsa explicativa, elemental de formas e perfis ilustrados e didatismo das lições escolásticas dos laboratórios de criação de jogos dramáticos.

Interagem, na recepção, ao universo de brinquedo a público imberbe em sugestão de atrair atenção de platéia + apropriada a participar do estímulo resposta que a cena dramática propõe em natureza da direção de atores.

A atriz, Bruna Portella, atrai melhor e até abre precedentes de boas intenções, quando faz a prostituta, cafetina; a garota fingindo-se leviana e a velha avó que divide a casa com a jovem enamorada.

O elemento de calcinha tirada, ou exposta aos calcanhares, para emblematizar a queda do pudor e quebra do tabu de quem gera liberdade de expressão, imposição de identidade e liberalidade sexual é risível, representativa da identidade a quem precisa ser declarada.

Foge do lugar comum, sem exacerbar em cacoetes ou maiores caricaturas. Uma dobradinha deliberada entre a personagem, da atriz, e a sugestão do facilitador da cena, diretor, para a compreensão livre e de domínio de maior recepção.

“Antes da Chuva”, texto de Rodrigo Portella; direção de Rodrigo Portella e Leo Marvet; se expressa ao tempo de 60 minutos, não contrai ingenuidade, nem descuido em construir bom teatro, é todo esforço em expansão de provir arte cênica e todo acerto dramático.  Chovem no seco e hidratam o exercício do ator em busca de aprimoramento do método.

Se não alimentam toda a terra do teatro que exploram, seria porque ainda não aprenderam a encharcar-se do drama e conservarem reservas que molhem terrenos ermos estabelecidos entre o vazio e silêncio teatral e o ruído da comunicação da chuva que cai. Já há uma tempestade em busca de controle da ciência da cena.


Há de sedimentarem-se no solo dramático aspirado e, aprendizes da feitiçaria da arte do fingimento, não perdem os fios da mora, estão no olho do furacão desse universo que conspira arte dramática.

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