sábado, 9 de novembro de 2013

"Somos todos mortais"

A vida é assim
por maneco nascimento

No tempo de criança sempre ouvia a expressão, quando alguém adoecia, “baixou no hospital” e quando a pessoa ficava curada, “recebeu alta”. Não tenho ouvido, nos dias de hoje, a primeira expressão. Mas “receber alta” ainda prevalece. Quando alguém desaparece, usamos de diversos eufemismos para amenizar a passagem de alguém. Foi ao encontro do Divino, subiu aos céus, foi desta pra melhor, entre outras.

Por mais que existam teorias materialistas e discursos distanciados, de melhor aceitação da morte, sempre há alguns que ou guardam certa intranquilidade com o tema, ou se chocam e levam algum tempo para “aceitar” o inalterável, o tempo de vida para a morte natural da espécie.

Então, para tratar de desaparecidos da cena brasileira, na semana, vou apropriar-me das expressões para entradas e saídas do hospital e eufemizar como instrumentos de viagem ao imponderável.

Nesta semana, tivemos duas baixas. O Brasil perdeu dois grandes artistas da cena cultural nacional, um grande ator e um grande autor. Para nós que, por vezes, temos certa dificuldade de conviver com a natureza da morte, morrer é uma baixa. Por outro lado, aos crentes na vida pós-morte, a subida espiritual poderia ser identificada como uma alta, rumo às estrelas. Jorge Dória e O. G. Rego de Carvalho concluíram seu tempo terreno e receberam passaporte ao tempo da Luz.
(jovens Jorge Dória e O. G. Rego/divulgação)

Jorge Dória, um talento da geração dos grandes atores e humoristas nacionais. Conhecido do grande público, através do teatro, novelas, filmes e programas de humor da televisão brasileira. Seu franco sucesso passeou por aqui com a montagem teatral de “A Gaiola das Loucas”, que foi exemplo de um dos mais festejados enredos à cena. No cinema, duas versões encheram os fãs de alegria. Uma francesa, de humor econômico e refinado, e uma americana com seu humor + para american way of life e terceiros mundos, embora com a presença marcante de Robin Williams.
(grande Jorge Dória/divulgação)

“Jorge Dória, nome artístico de Jorge Pires Ferreira (Rio de Janeiro12 de dezembro de 1920  — Rio de Janeiro, 6 de novembro de 2013), foi um ator brasileiro.
Filho de militar, nasceu no bairro de Vila Isabel, Rio de Janeiro. Estreou no teatro em 1942 e no cinema em 1948, com o filme Mãe.
Iniciou sua carreira na televisão em 1953, atuando em uma novela da TV TupiDelícias da Vida Conjugal. A carreira na TV consolidou-se a partir da novela E nós, Aonde Vamos?, da TV Rio, quando já era um ator consagrado no cinema e no teatro.
Atuou nas peças A Gaiola das Loucas (seu maior sucesso como protagonista no teatro brasileiro), O AvarentoEscola de MulheresA PresidentaA Morte do Caixeiro Viajante, entre outras.” (www.wikipédia.com.br/acesso 9.11.2013, às 15h 29)
O. G. Rego de Carvalho era um homem sobrecomum, sempre na dele, querido pelos leitores. Eu mesmo, em minha timidez de abordar grandes homens, me forcei a cumprimentá-lo certa vez. Não poderia me privar de dirigir uma palavra a um dos escritores piauienses + admiráveis. De leitura não fácil de primeira vista, mas de uma completude, inteligência e rebuscado escrito que envolve o leitor curioso. Adoro sua literatura.
(Ulisses e O. G. Rego de Carvalho/divulgação)

“Orlando Geraldo Rego de Carvalho (Oeiras, a 25 de janeiro de 1930Teresina, 9 de novembro de 2013), foi e é um escritor brasileiro1 Bacharel em Direito, professor e funcionário aposentado do Banco do Brasil, O. G. Rego integrou o Grupo Meridiano e pertence à Geração 45. Juntamente com o poeta H Dobal e o crítico M. Paulo Nunes, lançou em 1949 a revista ‘Caderno de Letras Meridiano’, um marco dentro do Modernismo Piauiense. Foi ocupante da cadeira número 6 da Academia Piauiense de Letras. Residia em Teresina.
Sua obra mais marcante é Rio Subterrâneo, quando o escritor expõe de forma crua as neuroses, conflitos, medos, loucura e solidão de seus personagens.1
Principais obras, Ulisses Entre o Amor e a Morte19531;  Amarga Solidão1956; Rio Subterrâneo19671; Somos Todos Inocentes19711; Como e Por Que Me Fiz Escritor1989;Ficção Reunida20011(www.wikipédia.com.br/acesso 9.11.2013, ás 15h41)

O. G. quando ainda visto na rua, deslizava discreto, sem nunca querer chamar a atenção, cumpria seu caminho de vida apropriada. Não precisava ser rasgado na rua, sabia de sua obra e sua hora.
Nos eventos, era de poucas palavras, quando provocado, mas contundente em sua economia de se fazer entender. Parecia nos prospectar para personagem de sua ficção, mas só discrição e educação em manter-se em seu silêncio e sua compostura poética e intelectual da prosa moderna.
Dória nos deixou dia 6 de novembro, O. G. dia 9, três dias depois da ida do ator. O prosador partiu no mesmo espaço tempo em que outro artista piauiense das letras rumou ao cosmo. Torquato Neto, consta, despediu-se da vida entre o fim da noite do dia 9 e a madrugada do dia 10 de novembro de 1972. Orlando Geraldo, dia 9 de novembro de 2013. Transcende no dia do aniversário de outro artífice da literatura nacional, de cepa piauiense. Talvez nada os aproxime, senão uma data. Ou tudo os torne únicos, a arte de escrever.
A vida é assim. Um dia para nascer, outro para morrer. Jorge Dória e O. G. Rego de Carvalho ganharam alta desse canteiro de passagem e foram assentar-se nos campos do Senhor.
Como vaticina o dito popular “Daquela que de novo se safa, de velho não se escapa”. Nossos queridos nasceram, cresceram, procriaram, plantaram sua arte e evoluíram para efeito de redenção.
Saudades de Dória e de O. G. Rego de Carvalho. Que melhor nos despeçamos, destes artistas, com toda alegria. Porque de alta dessa provação, estão em Alta fidelidade do Divino.

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