quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Brasileiro(a)s, à luta!


Brasileiro(a)s, à luta!
por maneco nascimento

Brasil, país sui generis. Terra de samba; futebol e vedetes ouro dos campos de celebridades da bola; do carnaval a perder de vista; da mulata exportação, mas também da mulher e crianças traficadas (vide folhetim, do horário nobre da tevê globo, que estoca uma ferida aberta, mas disfarçada com merthiolate indolor); das grandes festas e feriadões incomparáveis, com o resto do mundo; e de dias cada vez + violentos em cada esquina dos grandes centros urbanos dessa nova era, de mundo selvagem.

Essa cidade Brasil tem também suas peculiaridades do analfabetismo mascarado; do analfabetismo funcional; da educação acelerada; da educação classe média e alta e a dos outros mortais; do desemprego; do subemprego; da informalidade e empreendedorismo de sobrevivência em qualquer esquina nacional. 

Do país de taxas de impostos + caras do mundo; da desigual distribuição de renda e de, embora nação da bolsa auxílio, grandes índices de miseráveis; maiores e menores; sem tetos e sem terras em continentais glebas públicas e privadas, especialmente.

Mas terra da alegria que (...) em se plantando, tudo (...) se dá em resultados a pobres, ricos, remediados, míseros esperançosos, herdeiros de cristãos incondicionais, moradores das ruas, das vielas, dos viadutos e pontes, dos esgotos e córregos, das encostas escorregadias e sujeitas às surpresas dos dias em chuvas de verão.

E como ninguém é só alegria e hospitalidade, tem tempo de ralar e passar à próxima fase. Ao exemplo de os morros mal vestidos”, os centros urbanos coloridos, do diverso matiz, de barracas e bancas do cotidiano do patrão de si mesmo, fazem a feira popular e necessária à própria sorte.

E como todo trabalhador, de qualquer canto desse rincão nacional que precisa sobreviver, tem que produzir e pagar a cota diária do mundo cão nosso de cada dia. Caem trabalhadores e trabalhadoras na sorte e, de seus habitat naturais, deslocam-se e, “(...) vão dizendo aos homens no sono/que alguém acordou cedinho/e veio do último subúrbio (...)” [Morte do Leiteiro, Carlos Drummond de Andrade, 1945], trazendo sua força de trabalho e determinação em manter identidade brasileira, feito chama acesa.

As lotações, transportes coletivos urbanos, chegam aos centros comerciais e de produção inchados de trabalhadores brasileiros a ocuparem seus postos, de suas escolhas ou de seletivas chamadas ao batente. E quando chega a hora da pausa do primeiro turno, horário de almoço, vem outra generalidade nacional. Os que matam a fome dispostos nas calçadas, no entrecruzamento de gentes que transitam de lá para cá, enquanto outros pausam para comer.

Debaixo de suas barracas, recostados em sombras, no escondidinho do muito exposto, esses operário(a)s abrem um espaço doméstico para criarem energia ao segundo turno da insistência funcional. Enquanto almoçam tonificam o corpo e detêm o que seria necessário (...) para todos criarem força na luta brava da cidade (...)” [Idem)

No centro de Teresina não é incomum que se tope com os operários das calçadasmatando a quem lhes quer matar”. Alguns (comerciários do entorno) se recolhem a áreas protegidas, como as calçadas internas da Galeria do Clube dos Diários, descobrem suas marmitas e cumprem seu ritual de manter atividade. Depois, há os que ainda deitam-se sobre o chão daquela área sombreada e quebram o sono, antes que os domine e comprometa o melhor desempenho da segunda jornada logo ali, batendo o tempo das 14 horas.

Ficou contumaz pessoas tirarem um descanso após o almoço nesse guardado campo de espaço público, mas há também outras perspectivas. Embaixo de uma árvore, nos bancos das praças, em pé ao lado da banca de churrasquinho de “gato”, na sala (refrigerada) do trabalho, quando possível e no + criativo ponto da necessidade apresentada. Esse é o país que temos e sabemos mantê-lo, quer com suas adversidades, quer com todas as suas diferenças que parecem, romanticamente, nos querer iguais.

O brasileiro (a) das ruas, das calçadas, das praças, das vilas, filas, das feiras, das periferias, subúrbios, dos centros urbanos e eixos setoriais de existência e sobrevivência está na sua e, brava gente, insiste em viver à parte e livre e morrer, quando não puder evitar, pelo Brasil que é sua pátria agora muito + armada, mas ainda assim amada e de felicidade invejada pelo resto do mundo turista.

Terra disputada que Com força e com vontade/A felicidade/Há de se espalhar/Com toda a intensidade (...)” [Antes que seja tarde – Ivan Lins/Vítor Martins), porque Isto aqui, ô ô/É um pouquinho do Brasil iá iá/Deste Brasil que canta e é feliz,/Feliz, feliz,/É também um pouco de uma raça/Que não tem medo de fumaça ai, ai/E não se entrega não (...)” [Isto Aqui, o que é? - Ary Barroso].

Terra brasis em que sobra à nossa contemporaneidade muito + realidade consentida e vivenciada que os discursos pregoeiros de qualquer contexto político e oficioso. É território que embora “depois do meio-dia, nem polícia e nem ladrão”, ainda se dedilha as contas do rosário de Brasileiros, à luta!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Crime capital


 Crime Capital
 por maneco nascimento 

Dinheiro na mão é vendaval/É vendaval!/Na vida de um sonhador/De um sonhador!/Quanta gente ai se engana/E cai da cama/Com toda ilusão que sonhou/E a grandeza se desfaz/Quando a solidão é mais/Alguém já falou...) Mas é preciso viver/E viver/Não é brincadeira não/Quando o jeito é se virar/Cada um trata de si/Irmão desconhece irmão/E aí!/ Dinheiro na mão é vendaval/Dinheiro na mão é solução/E solidão! (...)” (Pecado Capital - Paulinho da Viola)

Essa música foi tema de um dos + emblemáticos folhetins da televisão brasileira. “Pecado Capital”, de Jante Clair, fez enorme sucesso em período da década de 1970 (nov. de 1975/jun. de 1976) e ganhou um remake, anos depois (out. de 98/maio de 99), numa homenagem à grande autora e à memória da teledramaturgia nacional. Mas em se tratando de pecados + reais e também capitais, caminhemos porque a humanidade sempre avança.

Um dos sete pecados capitais (instituídos pelo papa Gregório Magno, no século VI, como princípios que ferem a Deus, a você e ao próximo) é a Avareza, traduzida em cobiça de bens materiais e dinheiro. Essa falha humana passa pelo eixo da sede pelo dinheiro (poder) e o que se poderia fazer para ganhar, ou manter o quinhão financeiro. Usura, ambição, mesquinhez, apropriação do bem alheio, da exploração do trabalho de outrem, do engodo, da + valia corrompida e do exitoso lucro tratorando interesses coletivos e públicos. O privado assume papel exclusivo de benefício particularizado. Batata! 

Recentemente uma tragédia, de proporções estarrecedoras, ganhou vida e estatística no noticiário e obituário nacionais. + de duzentas e quarenta pessoas morreram, em conseqüência de um incêndio ocorrido em boate da cidade de Santa Maria (RS). Uma casa de espetáculo recebia uma banda musical e um público de mil pessoas. Um incêndio provocado, a partir de rojão aceso por músico da banda, desencadeou dor e sofrimento aos familiares, morte a muitos e conseqüências ainda em andamento a quem sobreviveu ao primeiro impacto das chamas.

Os depoimentos de sobreviventes conseguem ser + conseqüentes que a tragédia (grave) que, aparentemente, não seria anunciada. Pessoas querendo sair do local e fugir das chamas e fumaça tóxica; sendo impedidas pelos seguranças que alegavam que ninguém sairia sem pagar a conta; pessoas mortas por sobre as outras dentro dos banheiros, local que viram com tábua de salvação e que acabou sendo a toca da morte. Único sinal luminoso a quem estava confuso com fogo e fumaça, o caminho à luz, levou ao banheiro, indicação de armadilha.

A pena capital, fortuita, morrer quando a agenda seria a diversão em local pop, na cidade de Santa Maria do Rio Grande do Sul. Essa foi uma de nossas tragédias + infames entre nossa diversidade de falhas da humanidade, falha não do público, mas da empresa do negócio, do capital inflamável que atraiu pessoas à ratoeira do lucro e da boa renda da cultura da diversão e entretenimentos oferecidos a qualquer preço. Paga a pena com o desaparecimento, por vezes, de + de três pessoas de uma mesma família.
(Boate Kiss, incendiada/foto: divulgação Polícia Civil RS)

Na madrugada do dia 27 de janeiro, centenas de jovens participavam de uma festa na boate Kiss, no Centro de Santa Maria. O fogo começou durante a apresentação da banda Gurizada Fandangueira. Por volta de 2h30m, um dos integrantes do grupo utilizou um sinalizador luminoso, cujas fagulhas atingiram a espuma de isolamento acústico da casa noturna, provocando o incêndio.
As vítimas buscaram rotas de fuga, no entanto, segundo relato de sobreviventes, um grupo de seguranças bloqueou a única saída da boate para evitar que os clientes saíssem sem pagar (....) A maioria dos mortos foi vítima de intoxicação pela fumaça. Os bombeiros encontraram dezenas de corpos empilhados nos banheiros, onde muitos ainda tentaram se proteger, e em frente à porta da boate.
” (oglobo.globo.com/pais/socio-de-boate.../Publicado: 30/01/13 - 10h26 Atualizado: 30/01/13 - 10h34)

As imagens, em cadeia nacional, de pessoas estendidas na porta, na rua, no asfalto ribeirinho da boate, não deixaram qualquer dúvida da culpabilidade empresarial do lucro capital. Os desdobramentos das investigações policiais dão conta da insegurança que o negócio propiciava ao público. Extintores não funcionaram, não havia saídas de emergência; a única porta de entrada/saída estava trancada para evitar que o público saísse sem pagar; o isolamento térmico não seria o de recomendações técnicas para espaço às casas de espetáculos, etc. 

Nada compensa qualquer morte. Nesse caso, descompensados estão os envolvidos na catarse dessa tragédia brasileira. Morrem + Brasil que o que se imagina. Há muito + desordem nos negócios do capital do lucro que possa prever nossa vaga ingenuidade. Quem observa a tragédia de longe, a partir de noticiários da tevê, não tem noção real do que foi e do que ainda está sendo, aos envolvidos, aquele infortúnio, “sabe lá o que seja impulso de ingênua compreensão”, lembrando Drummond.

Morremos nós, ficamos sós.” E quem sabe haja qualquer justiça ao descuido praticado, à ambição incontrolada, ao jeitinho de engodar as exigências legais de proteção a acidentes fatais, à prática de deslizar da legalidade por força da impunidade parecer sempre receber celebração. Morremos todos, um pouco a cada dia desse nosso Brasil tão desigual, de ações fora das políticas humanistas e de proteção à vida.

Na fábula da teledramaturgia, morre o anti-herói (Carlão). A pena capital é aplicada por apropriar-se do dinheiro alheio. Que penalidade poderia ser aplicada ao usufruto do crime capital, inflamável e infamante que detém a (des)ordem de aplicar a pena capital sobre a ingenuidade alheia, sobre a confiança de quem precisa também se divertir, pois não é máquina.

A negligência, a ingerência a políticas público-privadas de proteção ao outro, as estratégias de sobrevivência ao custo benefício de descompensar o outro, ganhar sobre o outro, parecem lugar comum nesse mundinho brasis. E, fora do círculo romântico do folhetim, dinheiro na mão empresarial pode até ser vendaval sobre as costas desprotegidas dos + fracos. Não é sonhador, é investidor, empreendedor e altamente lucrativo. É sempre solução. E irmão nem sempre reconhece no outro o irmão.

A solidão é do perdedor, não do capital aplicado ao lucro imediato e, por vezes, inflamável. Luz aos confusos na morte desenfreada da tragédia de Santa Maria (RS).

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Políticas sócioculturais


Políticas sócioculturais
por maneco nascimento

Reunir pessoas e abrir discussões acerca do papel de políticas sócio-culturais da e na comunidade, foi assim que começaram os encontros no bairro Poti Velho com lideranças comunitárias, artistas, arquitetos, coordenadores e secretários municipais. O primeiro encontro deu-se dia 23 de janeiro de 2013, às 10 horas, na Praça do Poti. As discussões evoluíram para uma segunda reunião dia 29 de janeiro, esta última ocorreu no Centro Paroquial.

Deste último encontro, uma tomada ampla das contribuições trazidas pelos líderes comunitários e promotores culturais. Dessa vez, presente, uma grande equipe de arquitetos e urbanistas, vieram ouvir os reclames comunitários, para a partir dessas demandas, planejarem intervenções e reapropriação urbanística na região.

Também presente nesse encontro o representante do Programa Lagoas do Norte, senhor Ferraz que, incorporado ao grupo de discussão, trouxe a sua contribuição, haja vista a próxima etapa do Lagoas do Norte ser a que contempla o bairro Poti Velho, incluindo a área dos antigos lagos de produção de tijolos.

Arte, cultura, economia solidária, economia criativa, revitalização de espaços físicos, inclusão, nas discussões, de quem melhor poderia entender das necessidades do bairro, os comunitários. Donos de bar, líderes comunitários, professores, artistas e os provocadores dos encontros (Olavo Braz – Secretaria municipal de economia solidária e Alcília Kaki Afonso – Secretária Executiva de Planejamento Urbano) estiveram abrindo margem para criar possibilidades de ver o bairro tomar uma nova cara. 

Segundo Kaki, seria necessária uma revitalização, requalificação do Poti Velho que desse mostra do local, não só para público visitante, como também apresentá-lo melhor à comunidade e cidade de Teresina em geral. Pensar a cidade de forma coesa, coletiva e, dentro dessa perspectiva, o mapa turístico da cidade incluir em percurso o bairro em discussão, integrá-lo à curiosidade da cidade.

A reestruturação político-cultural do Poti Velho sedimentada numa linha única de trabalho, com planejamento integrado, discutido em respostas a ações de curto, médio e longo prazo e que mantivesse a valorização da cultura, sustentabilidade, respeito à identidade e geração de emprego e renda ao morador da região, seria o que caracterizaria, nas discussões, a intervenção pensada ao bairro.


Ouvidas as solicitações de quem melhor sabe onde poderiam ser feitos os investimentos infra-estruturais. Solicitações que urgem concretização desde educação, reestruturação e ampliação de creches; construção de mercado público; de biblioteca comunitária e sala de leitura; cobertura de quadra de esporte da Escola "Iolanda Raulino"; revitalização de campo de futebol comunitário, na área do pólo cerâmico. Reestruturação do Centro Social e mercado do peixe; criação de vias para tráfego de pedestres e turistas que visitam o pólo cerâmico; recuperação do posto policial da área; asfaltamento de ruas.

Também foram reivindicadas a revitalização da Praça e dos Festejos de São Pedro e Nossa Senhora do Amparo; ocupação do Boibódromo; doação do prédio do Posto de Saúde à comunidade que abrigue as associações do bairro; criação do Museu Popular; apoio à realização das manifestações dos Blocos carnavalescos, Festejos do Poti Velho e Feira Arte Poti; criação de uma praça de alimentação no pólo cerâmico; de um centro artesanal da mais diversa produção da cidade e valorização da cultura religiosa, do diverso de matizes; da dança, teatro e música da região, da cultura da culinária tradicional e típica do bairro; criação de pousada, na região, para turista e recuperação ou ampliação dos passeios de barcos nos rios e encontro destes.


Bairro de tradição histórica do começo da cidade, o que não faltam são boas idéias que recuperem ou abram maior curiosidade da cidade, ou de pessoas que busquem o Poti Velho, como referência da construção da memória de Teresina. Local das práticas oleiras e artesanais nativas, das tradições religiosas da Procissão Fluvial e Festejos de São Pedro e de Nossa Senhora do Amparo, da cultura do pescador e do peixe, das lendas ribeirinhas, da lenda e brinquedos do Bumba-meu-Boi. 

(1a. Sede da Igreja de N. S. do Amparo/foto: www.skyscrapercity.com)


Bairro da primeira igreja edificada na capital, do Colégio "Firmina Sobreira" que completará 100 anos, neste 2013. Esse Poti Velho aniversariará aos seus 298 anos, segundo um dos presentes ao encontro realizado e, nessa idéia de investida na região, as iniciativas parcerizadas poderão catapultar o bairro e suas ações sócio-culturais ganharão reforço de existência, identidade e pertencimento.


(Escola Firmina Sobreira/foto: www.skyscrapercity.com)

Desses fóruns comunitários e, sob observação e ouvidos técnicos, o Poti Velho vai desenvolvendo a prática de falar e ser escutado. O próximo encontro, já marcado, ocorrerá no pátio da Escola “Iolanda Raulino”. O tema, a exibição do Projeto Lagoas do Norte – Etapa Poti Velho. A apresentação ficará a cargo do senhor Ferraz, arquiteto da equipe do Programa Lagoas do Norte.



(1a. Sede da Igreja de N. S. do Amparo, hoje/foto: www.skyscrapercity.com)

Um dos primeiros logradouros públicos de manifestada formação social de Teresina deve ganhar novo perfil infraestrutural, a partir de políticas sócio-ambientais e culturais renovadoras. A cidade agradece e a comunidade da antiga Vila do Poti não perde por esperar, ganha por cobrar direitos emergentes à continuidade sóciocultural.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

"zonasub", zona franca


“zonasub”, zona franca.
por maneco nascimento

(...) O poeta, em contrapartida, jamais atenta contra a ambigüidade do vocábulo. No poema a linguagem recupera sua originalidade primitiva, mutilada pela redução que lhe impõe a prosa e a fala cotidiana (...) Palavras, sons, cores e outros materiais sofrem uma transmutação mal ingressam no círculo da poesia (...) Ser ambivalente, a palavra poética é plenamente o que é – ritmo, cor, significado – e, ainda assim, é outra coisa: imagem (...) O artista é criador de imagens: poeta (...) O poema é tempo arquetípico, que se faz presente mal os lábios de alguém repetem suas frases rítmicas. Essas frases rítmicas são que chamamos de versos e sua função é recriar o tempo.” (Paz, Octavio. O Arco e a Lira; trad. Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. 368 p. [Coleção Logos])

O articulista mexicano ao tratar de Poesia e Poema (pgs. 25, 26 e 27) e d’ O Ritmo (pgs. 77 e 78) traduz, nos  textos acima, e dispõe ao leitor em que meandros se geram a poesia e as falas do poema. De como seria reinventado o tempo que traduz o poeta, sua obra criadora e criativa e que faz com que poesia e poema, forjas dadas, reflitam o homem e seu tempo na reinvenção do paradigma poético. A palavra do poeta, imagens. O criador de imagens, o poeta.

Rodrigo M. Leite, jovem poeta local, na louçã criativa de frases de poéticas urbanas, vem curtindo seu couro de bode e delineando peças manufaturadas que amaciam a aridez da urbe de ricos chiqueiros de bichos fechados em seu ruminar, ou que desfilam em pastagens cinzas, dos dias contados, no calor da cidade verde.

Na apresentação de sua nova publicação “zonasub” abre identidade de memória e história quer às cidades visíveis, ou também as invisíveis e reflete outro(a) artista “‘...não se está nunca diante da cidade, mas quase sempre dentro dela.’” E completa, o raciocínio, “‘mesmo numa cidade perdida nos confins da história ou da geografia há pelo menos uma calçada ou praça que é de todos e não é de ninguém.’” Textos atribuídos a Raquel Rolnik.

M. Leite brinda o leitor a refletir-se na própria urbe e estar sempre dentro dela em pertencimento e identidade dos dias, horas, o tempo e o evento das histórias e geografias que, sendo de todos, não é de ninguém. “...cidade, te/quero qualquer coisa de minha/relâmpagos saraivados de sabores/terra entre dedos domingueiros/abraços d’avó querida (...)/quero alarido ronco uma dose ausente/um dia nublado, saudade/o gemido da gente”. (cidade, te. pg. 5)

Memórias de história da construção da cidade em trocadilho inteligente a relâmpagos e dedos intertextuais a Saraiva e Domingos Mafrense, sem perder as próprias memórias afetivas e poéticas. E à crônica urbana, “durante o dia feéricas ondas de calor com areia/misturadas ao óleo diesel borracha ferrugem e saudade/envelhecem acontecimentos presentes/torrão chapada do corisco (...)/à noite, junto de gestos precários/homens sem sombra, partes da clandestina escuridão (...)/adiante, zona sul, esquina da Mapil/garotas de esqueléticas formas, comedoras de brasa/cuspidoras de fogo!/atiçam corações feridos de aço e sucata,/esmagados pelo esquecimento”. (a tabuleta é um bairro pesado. pg. 7)

que os homens andem vagarosamente/passos lentos corredor/que os móveis estejam empoeirados/telhas quebradas goteiras (...)/que eu caminhe contigo,/aceite tua bebida! (...)/se estive pensando no rio/nos banhos não dados todo esse tempo? (...)/a sombra ainda me agrada os membros/relaxos, contornos” (posso te dizer uma coisa? – ao descobridor Arnaldo Albuquerque. pg. 8)

O olhar do poeta radiografa temas, aparentemente, fugazes. Estão na esteira de inteireza cotidiana, “da tarde que segue nervosa os homens surgem suados/carregados de preocupações, destinos a esmo/- me vê uma Antártica gelada (...)/a urbe urge roncos trôpegos/a tarde é consumida dentro de um café” (Café Art Bar. pg. 9), ou também “ao meio dia:/temíveis ondas de calor!/algumas nuvens ainda tornam a cidade nublada/claro-escura/óculos escuros (...)/ ao meio dia/anúncios comerciais em bicicletas falantes:/fogo! fogo! fogo! (delírio ao meio-dia. pg. 10).

Estes últimos versos poderiam abrir alusão contextual aos incêndios criminosos da cidade de palha, década de 1940, e, no link histórico, lembrar da metáfora popular, feita licença poética. Não podendo mais dizer fogo! fogo! fogo!, se adotou chuva! chuva! chuva!, para driblar a desproteção gerada pelos horrores violentos da polícia proibitiva de Leônidas Melo.

E, quando reluz ambigüidade, o poeta faz-se toda prova de medidas palavras, protegidas pelas imagens e outras intenções, “te/escrevo/poema duro/feito água/[não em dose]/substância presa/num copo de (...)/água/água solta/sanitária!/cáustica!/desinfetante!/água/água doida/oxigenada!/ardente!/alucinante!/naquela noite – incêndios pela casa enquanto todos dormiam/procurei escórias, ruídos, suspiros/insone/restaurei gemidos/sangrados,/sussurros/na ponta da língua, bico do seio/na flecha[na lança}/defuntas metáforas despertaram insalubres (...)/te/escrevo/poema duro feito água/água” (poemaduro. pgs. 12, 13)

Ainda sensual e narrativo humorado,combinamos/aquele Hollywood: o último/você pediu pra fumar primeiro/acendi o cigarro na sua boca, fogo!/- bem, não quero morrer igual aquele cowboy (...)/ainda não morremos  tuf tuf tuf/nem deixamos de fumar – mas aquele/foi o último cigarro que queimamos juntos” (Hotel São Francisco – em frente a rodoviária. pg. 16)

De volta aos velhos temas [tão banais], “vigas inacabadas miram o céu,/refletores desligados do estádio./na quase solidão do cimento esverdeado/vermelhas Monark’s velozes/inauguram cicatrizes, rachaduras no chão/na boca o gosto de limão/ - tradição desde 1957/ardor azedalaranjado/de um por-do-sol metálico/sísmicos abalos no meu peito/anoiteço ferrugem beira de calçada” (o entardecer baldio no terreno entre o Estádio Lindolfo Monteiro e o Verdão. pg.  17)

De volta à Chapa referenciada, “a banda tocou outro jazz/meu peito elétrico/sonhei contigo/noite inteira/Teresina, New York: Praça da Bandeira” (conversávamos na chapada iluminada. pg. 19) e,  novamente, à variação sobre o mesmo tema, o sensual noite aflora faunadentro/silêncio no afago de pernas/embaixo das mesas” (Ed. Silvestre Saraiva de Siqueira, Bar Canto Alegre. pg. 20), ou “(...) entre velhos discos novos amores/está o centro daquelas vidas naquele momento/alta noite vai quente/o sexo de todos entre as pernas,/também” (Clube do Vinil, 2010. pg. 21)

 E da expectativa (in)compensada, da presa vigiada ao testemunho da solidão não desejada, noites adentro guardam “contos”/”cantos” beirando fábula, sonhos e ou retrato sem Dorian, nem éden, “colírio meus olhos abertos/vermelhos teus pés descalços/cachorras palavras desertas (...)/rabisco teu nome parede/cerveja meu verso alado/faísca menina com sede/arisco retrato gelado (...)/alísio geral insone/teu corpo latido com rima/faísca menina com fome/--------/desisto do rastro caminho/termino o poema/sozinho” (colírio meus olhos abertos. pg. 22)

 O risco das palavras, arisco corajoso não cala, fala, estala sensações e imagens decantadas na verve dos subúrbios, periferias e urbanos versos poéticos. Assim se me deparo na recepção de zona franca de rodrigomleite. zonasub. teresina: editora paissandu, 2012. 23 páginas de licença convertida em poeta.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Recintos d'alma


Recintos d’alma
por maneco nascimento

A Muovere Cia. de Dança Contemporânea está se movendo pelo nordeste. Em escala de expansão de corpos e ações cênicas, para espíritos criativos, se apresentará também em Teresina, já vindo da cidade de Parnaíba. O projeto, RE-SINTOS: UM BRASIL MAIS PERTO.

Contemplado com o Prêmio Procultura de Estímulo ao Circo, Dança e Teatro 2010, o Projeto oferece apresentações do espetáculo “Re-Sintos” e oficinas de técnicas e criação coreográficas e confecção de projetos culturais. 

A caravana, iniciada no Recife, encerra seus serviços, por agora, em Teresina. Antes deixou seu sinal de arte cultural itinerante pelo litoral piauiense. Em Parnaíba as apresentações se deram dias 22 e 23 de janeiro, no Teatro SESC Avenida, às 20 horas e, na capital do Piauí, ocorrem dias 26 e 27 de janeiro, às 20 horas, no Theatro 4 de Setembro. 

As oficinas em Teresina também tiveram presença nos dias 24 e 25 de janeiro, das 16h às 18h (Corpo Contágio) e 25 de janeiro, das 9h às 12h (Projetos Culturais). Local das oficinas, no 4 de Setembro.

A Muovere Cia de Dança Contemporânea, de Porto Alegre, chegou na Parnaíba, dia 21 de janeiro do corrente. A iniciativa cultural desenvolvida visa aproximar a produção artística da companhia com públicos do nordeste do país, através da apresentação do espetáculo “Re-Sintos” e duas oficinas. 


(Muovere em Re-Sintos/fotos: divulgação)

Com direção de Jussara Miranda e Diego Mac, a Muovere conta com a artista convidada, Jezebel de Carli, na direção cênica. O espetáculo adota o espaço como tema, com performances que sugerem presenças em lugares comuns do cotidiano: os de passagem, encontros e desencontros, dialogando com situações presentes no dia a dia das cidades. 

(Muovere em Re-Sintos/fotos: divulgação)

"Re-Sintos” teve sua pesquisa estética no 4º Regimento da Cavalaria Montada da Brigada Militar do RS, lugar de inspiração para criar o cenário, os figurinos e o projeto coreográfico. Empresta-se do simbolismo do cavalo, sua força, velocidade e subserviência, em metáfora com a condição humana. 

(Muovere em Re-Sintos/fotos: divulgação)

A montagem já recebeu diversos prêmios, como Açorianos de Dança/SMS POA (1999), Prêmio Incentivo à Produção Cultural IEACEN/ SEDAC/ RS (1999) e Edital Caixa Cultural (2010). 


Das oficinas ministradas, Corpo Contágio objetiva instrumentalizar criadores com técnicas coreográficas sobre procedimentos de criação, abordados através de contágio e acumulação.A oficina é ministrada por Jussara Miranda – coreógrafa e professora de técnicas corporais, graduada em Dança, com mestrado em Inclusão Social e Acessibilidade – e Jezebel de Carli, artista colaboradora da companhia, como diretora cênica. É professora do curso de Teatro da Universidade Estadual do RS e Mestre em Artes Cênicas pela UFRGS. 

E a de Projetos culturais mais perto visa aproximar artistas da dança a procedimentos básicos de confecção de projetos culturais. A oficina é ministrada por Diego Mac, graduado em Dança, Mestre e especialista em Poéticas Visuais e diretor artístico da companhia. 

Terminada a etapa do Piauí, “Re-Sintos” seguirá, em abril, para as cidades Salvador e Camaçari, na programação do Festival Internacional VivaDança. Em Teresina, ainda dá tempo de ver o espetáculo, nos dias 26 e 27 de janeiro de 2013, às 20 horas, no palco do Theatro 4 de Setembro. Bailarinos, coreógrafos, atores e curiosos, em geral, correi.

É chegada a hora de conferir “Re-Sintos”, da Muovere Cia. de Dança Contemporânea, em duas apresentações no 4 de Setembro. Ouça a voz do corpo que fala através do coletivo cênico que vem de Porto Alegre (RS). 

Recintos d’alma hão de interagir nas falas dos corpos que aqui armam seu circo de ações cênicas, no círculo de ciência e arte conjuradas.

Trilogia da mímesis


Trilogia da mímesis
por maneco nascimento
Depois da crise com direitos autorais, o Grupo Harém na esteira da estética de se reinventar, passa a investir em dramaturgia autoral e, nessa perspectiva, monta a peça número dois da Trilogia Ciência e Dramaturgia hareniana. “Macacos me mordam – A comédia” abriu o triângulo das desnudas intenções. O segundo vértice cênico da Trilogia atende pelo nome de “Abrigo São Loucas”.
“Abrigo São Loucas”, de texto autuado-flagrante das oficinas de criação de Arimatan Martins, tem estréia agendada ao dia 27 de janeiro de 2013, em Floriano, no Teatro Maria Bonita, às margens do Rio Parnaíba que separa o Piauí da maranhense cidade Barão de Grajaú. E, para essa nova montagem que o Grupo escolhe trabalhar com elenco menor, estão na cena emparedando a loucura de viés do humor inteligente, os atores Emanuel Andrade, Fernando Jorge Freitas, Francisco de Castro e Francisco Pellé.
A dramaturgia rege picardia, ironias e inteligência dramática garimpadas ao teatro do humor (re)afinado para públicos fins e afins de uma boa dose de diversão, entretenimento e crítica reflexiva ilustrada de forma que ninguém perca o fio de Ariadne, nem os labirintos da cena distanciada. Peça em comédia político absurda, às vezes de “esperando um novo tempo bom”, como argumenta Arimatan e sem deixar de intertextualizar Godot, mas dentro da estética própria do Harém.
As personagens, três ex-primeiras damas, que se chamam Maria, são peças do jogo do inventário popular (de histórias reais). “Abrigo são Loucas” é uma obra de ficção, mas qualquer semelhança com pessoas, ou fatos reais será esmera coincidência, é o que defende o Grupo. O enredo reflete desde contextos da farra com dinheiro público até a Lei de responsabilidade Fiscal.
As Marias construídas às personagens prezam pela tradição da comédia, com todos os componentes molierescos, com suas ironias de crítica voraz, de feroz estocada aos costumes. Em Molière, a crítica aos médicos. Em Arimatan, aos políticos. As três ex-primeiras damas são matriarcas, amalgamadas em conceitos antigos, retrógrados e reacionários. A decadente ex-proprietária de terras e fazendas; a emergente e a representante das classes populares.
São mulheres, mães, esposas e humanas. Fora do ciclo do poder, armam para voltar ao centro da viciosa tradição do poder. Estão juntas pelas circunstâncias, mas há uma crueldade que as separa e as interliga a um propósito e ou falha trágica do mundinho corrupto que viram ruir, sem que pudessem manter os padrões que refestelavam enquanto esposas de políticos “bem sucedidos”.
“Abrigo São Loucas” está sinalizado numa dramaturgia sob a égide feminina, o signo da mulher à sombra da política e dos desdobramentos que esta posição social lhe impõe. Regurgitam memórias áureas e conspiram a reconquista do território antes marcado pelo mijo do alfa das alcatéias.
Vem riso grosso pela frente. Que viver, verá a segunda peça da Trilogia Ciência e Dramaturgia hareniana, em breve ns palcos de Teresina. E, para os que já viram “Macacos me mordam – a comédia” (arte e ciência), verão “Abrigo São Loucas” (arte e política), não perderão por esperar o terceiro elemento, “As Bestas” (ciência e comportamento), já nas forjas de Hefestos só aguardando a hora de tornar-se “armadilha” ao público da cidade.
Atenção, ao dobrar uma esquina,olhe pros lados, a Trilogia Hareniana vai invadir suas raias, da loucura, do humor e do teatro premeditado. É mímesis da estética apropriada fazendo chegada.

Elétrica noite


Elétrica noite
por maneco nascimento

A noite do dia 24 de janeiro de 2013, a partir das 20 horas, no palco do Teatro do Boi (Complexo Cultural do Matadouro), se se tivesse desdobrado em duas, ainda seria pequena a energia em alegria contagiante na defesa das concorrentes ao Prêmio do 2º. Concurso de Músicas Carnavalescas de Teresina.

Cada cantor, compositor (também teve quem respondesse pela própria canção), ou intérprete defendeu sua piaba brilhante, com a força artística de quem bebeu água dos rios que lava a cidade e reúne talento criativo, bem humorado e de picardia característica da Teresina musical.

Não deu pra quem quis. Sobrou a quem marcou toca, porque quem veio, viu e venceu a expectativa da espera do resultado da premiação batalhada, nota a nota musical. Público diverso e superior aos 176 lugares da Casa de espetáculos que abrigou a 2ª. Edição do evento. Só show e alegria. E quem melhor desempenhou a defesa, reforçou a boa qualidade da composição apresentada.

Disputa acirrada, comissão julgadora concentrada e com currículo invejável. George Mendes (publicitário, jornalista e compositor); Aurélio Melo (músico, compositor, arranjador e regente da Orquestra Sinfônica de Teresina – OST); maestro Antonio Carlos Rocha (regente, compositor e arranjador, músico-militar integrante da Banda de Música da PMPI).

Completando o grupo dos cabeções musicais, Alexandre Rabelo – Naka (baterista, compositor, Mestre de bateria e autor de sambas-enredos premiados) e Iracema Telles, apaixonada por carnaval e que mantém carreira profissional de 26 anos de trios elétricos, clubes e casas de shows. Quem quiser duvidar, que duvide, mas essa comissão julgadora sabe o que fez.

“Elétrica Musa”, de Francy Monte, Osnir Veríssimo e Francisco Magalhães, abriu alas à hora de segura, senão outro pega. Na defesa da canção, Osnir Veríssimo e Dalmir Filho. Bela atuação em marchinha a ritmo atraente e melodia caliente. “A Dilma me traiu”, de Dário de Paulo, dona de um humor, à irreverência política, foi defendida pelo intérprete Marcelo Brasil. 

A terceira concorrente na trilha da boa folia foi “Se cochilar, o cachimbo cai”, de Abraão Lincoln. Na defesa performática Roraima e o dono da composição. De ótima sacada ao estilo em resgate da memória carnavalesca, desempenho exitoso na estética composicional e ilustrativa do enredo. Ponto na cabeça.

Paulo Moura e Mike Soares brindaram a concorrência com “Chip na cabeça”. Um dos últimos crooner, da nossa contemporaneidade, Francisco Luis, o Chico Rato, reforçou a ótima vida de humor e picardia livre contidos na inteligente composição.

A quinta defesa veio com o Grupo Mais Samba para o samba “Rumo ao Hexa”, de Weidner Lima. Tradição e gogó direcionado ao bom samba brasileiro, com tema do país do futebol à Copa de 2014. O axé veio com “Força do Coração”, das irmãs compositoras e intérpretes, Leila Queiroz e Shirley Queiroz. No concurso de músicas carnavalescas, a sexta concorrente trouxe a Bahia de todos os ritmos.

“Saudade, Saudade”, do já desaparecido Raimundo Nonato Freitas, foi composição apostada, no certame, por seu filho Manoel Freitas Sobrinho, que também interpretou a canção. Bela homenagem à memória familiar e de carnaval. J. C. Lopes (My Brother), compositor e intérprete de “Frevo, Suor e Amor” não estava na hora da chamada e perdeu o bonde da folia.

No páreo, nove concorrentes. A nona entrada foi a uma das melhores idéias de resgate de memória. Uma homenagem ao grande estilista carnavalesco, o Agulha de Ouro de Teresina, nas décadas de 50, 60 e 70, Bernardo Cruz.
(Conjunto Os Prateados/foto: divulgação)

A composição homônima, com assinatura de Antônio Carlos, Osnir Veríssimo e Ézio Fernandes, foi defendida pela tradição do Conjunto Os Prateados (Clemilton Silva, Antônio Carlos e Osnir Veríssimo). “Bernardo Cruz” já se impunha como vencedora pela tradição e memória do carnaval.

A última música da noite foi “Corpo Tatuado”, de Abraão Lincoln e Roraima, que trouxe de volta a interpretação criativa e irreverente de Roraima. Não deu para passar despercebida. Trunfos da alegria.

Quem viveu a expectativa pode até ter se surpreendido com o resultado, mas não poderia dizer, jamais, que fossem peixe fora d’água as grandes vencedoras. 

Prevaleceu a tradição das marchinhas e confirmou uma prerrogativa do concurso, resgate, memória e história natural dos velhos carnavais nacionais. No 1º. Lugar, “Bernardo Cruz”, parecia imbatível; “Se cochilar, o cachimbo cai” ficou com a prata aureada e o bronze, que também reluz brilho em cascalho decantado, foi para “Corpo Tatuado”. A premiação, 1º. - R$ 2.500,00; 2º. - 1.500,00 e 3º. - 1.000,00, respectivamente.

A cidade comparece, os artistas se manifestam e a Prefeitura de Teresina, através da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, confirma a reinvenção da tradição. Pode haver quem não defenda, mas a cidade não pode mais prescindir do Concurso de Músicas Carnavalescas, ou em melhor acepção de memória reanimada, Concurso de Marchinhas de Teresina.

A elétrica noite do dia 24 de janeiro de 2013, no Teatro do Boi, não teve pra ninguém que perdeu a hora da alegria.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Cultura da profissão


 Cultura da profissão
por maneco nascimento

O Teatro do Boi (Complexo Cultural do Matadouro) recebeu no último 23 de janeiro de 2013, a partir das 8 da matina, um evento que finalizou atividades de reencaminhamento social à fonte de trabalho e emprego. O Programa de Capacitação Lagoas do Norte desenvolveu perspectivas de qualificação social e profissional aos ex-oleiros, bem como suas famílias. 

O Programa que surge, via Projeto de Reconversão da Atividade Oleira, para benefício dos profissionais oleiros, removidos da região em que está localizado o Parque Lagoas do Norte, deu sua contraproposta ao fator social. No seu plano diretor de melhoria ambiental e urbanística também teve que aplicar fomento a sinais de mercados e futuros a quem ocupou durante toda uma vida um espaço de sobrevivência e cultura de subsistência.

Do trabalho de reorientação sócio-laboral, além da compensação financeira, a Prefeitura de Teresina abriu flancos de apoio à reinserção dos profissionais em outras atividades produtivas, canalizando acesso destes à capacitação em nova área de trabalho e emprego.

No evento, autoridades envolvidas no Programa e ou representantes das parceiras que dão vida e voz social a este. Na mesa formada, Luciano Nunes, representando o Prefeito de Teresina; Washington Luis de Sousa Bonfim (Secretário municipal de Planejamento); Lismara Kischner, representante do Banco Mundial; Vicente da Silva Moreira Filho (Coordenador do Programa Lagoas do Norte); Raimundo Caminha, Consultor do Programa Lagoas do Norte; Maria do Socorro E. de Cerqueira (Projeto Educare) e Eliane Gomes Sousa, representante dos oleiros.

Nas falas oficiais, o senhor Luciano Nunes se expressou sobre as oportunidades ao mercado de trabalho e que os profissionais que tiveram que sair do local em que passaram uma vida trabalhando estavam podendo “(...) ter uma nova oportunidade" de fonte de trabalho em que “(...) portas, (...) caminhos” foram possibilitados.

O secretário municipal de planejamento, W. Bonfim, disse que era “(...) a oportunidade chegando à casa das pessoas (...)”. Havia uma perspectiva de visão administrativa preocupada em manter o “(...) cuidado com a questão ambiental, social e política (...)” que envolveria tocar e continuar o Projeto Lagoas do Norte “(...) aproveitar as lições do Lagoas do Norte para ampliar a outras áreas da cidade.”

Em seguida foi dada a palavra a uma representante da comunidade, a senhora Eliane Gomes de Sousa. Disse estar satisfeita em ver qualificados “(...) tantos jovens, tantas mães de família (...) nova entrada no mercado de trabalho (...)”. Pediu às autoridades presentes que “(...) não esquecesse da nossa comunidade (...)”. Observou que há pessoas que já atuam nas áreas em que receberam qualificação. 

E disse esperar que esse programa permanecesse a existir, que continuasse investindo nas pessoas da comunidade que “(...) estão engatinhando e precisam de estrutura para continuar e não morrer na praia (...)”, finalizou.

Em seguida, houve a práxis da entrega de certificados e kits brindes aos representantes de futuros profissionais qualificados nas áreas de corte e costura, cabeleireiro, pedreiro e informática.

Assim caminha a humanidade, da região oleira da cidade, que construiu a cultura da profissão a partir do barro e que, nesse novo momento, começa a se mover para novas perspectivas que só o futuro poderá assegurar que novos milagres poderá obrar.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Dança fossa bossa


Dança fossa bossa
por maneco nascimento

As terças cênicas do Bar do Clube dos Diários, que já despejam todo vapor em sinais criativos nesse mês de janeiro, recebeu nesta terça feira, dia 22 de janeiro de 2013, ao Projeto “Eu, Você e o Teatro da Minha Vida” a artista coreógrafa e bailarina Beth Báttali, numa performance de dança em corpo inspirado ao recolhimento.

Vestindo um neutro de rendas, filó em preto e branco e uma personagem variando à introspecção, ao recolhimento e à fuga para o lugar comum da solidão em quarto, sala e sacada da moradia expiada. A causa d’alma exposta a quem projetou a leitura do objeto pesquisado.

Sua mensagem de corpo que dança em Beth, Elizabeths, Marias, Dolores, Maysas e Báttali e exala sentidos e prepara uma sinergia qual antiquário fragmental da alma em (dez)usos, iluminando multimarcas e decoração, designs e ilustrações de interiores da ânima prospectada ao ato criativo à cena do corpo.

A cartografia dramática preparada por Báttali interagiu com as músicas “Only you” (Elvis Presley) e, para fossas brasileiras, as canções-sucessos, das divas nacionais, “Fim de Caso”, de Dolores Duran, imortalizada nas vozes de Dolores e de Maysa Matarazzo, esta última contemporânea da também cantora e compositora Duran. 

“Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar
Há um adeus em cada gesto, em cada olhar
Mas nós não temos nem coragem de falar (...)”
(Fim de Caso/Dolores Duran)

Outra boa fossa trabalhada por Beth foi “Solidão” que ganhou características muito especiais cantada pela própria Dolores.

“Ai, a solidão vai acabar comigo
Ai, eu já nem sei o que faço e o que digo
Vivendo na esperança de encontrar (...)
Eu quero qualquer coisa verdadeira
Um amor, uma saudade, 
Uma lágrima, um amigo
Ai, a solidão vai acabar comigo” (Solidão/Dolores Duran)
A criadora-intérprete Beth Báttali rendeu um chapéu muito gratificante à ação cênica elaborada à sacada da criação e na sacada da solidão, espelhada em enredo do corpo econômico. Foi de boa média para fossa e bossas fossas em palco da dança. Salve, Báttali!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Tinir da folia


Tinir da folia
por maneco nascimento

Quando entra janeiro, mês que antecede o que abriga os dias momescos, começa a contagem regressiva aos dias de folia e alegria que contagiam o território nacional. Em Teresina não poderia ser diferente. Do lado de cá dessa linha do equador, também é hora de tinir as emoções, expectativas e a rumorosa preparação das veredas que culminam nos quatro dias de uma das mais tradicionais e populares festas brasileiras.

Na cidade verde, quase tudo gira em torno da alegria anunciada. A Prefeitura de Teresina, através da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, inicia seu “metier” lançando o Carnaval do ano (Galeria do Clube dos Diários, 08.01.2013), enquanto isso os editais pipocam em chamamento aos candidatos a autor de música carnavalesca, rei momo e rainha do carnaval, rei e rainha do carnaval da 3ª. Idade, corso e alma foliã resguardada até que seja provocada.

Do Concurso de Músicas Carnavalescas, na sua segunda edição nesse 2013, houve 48 inscritas e 10 tiveram bandeira verde à concorrência de prêmio que ocorrerá na noite do dia 24 de janeiro de 2013, no palco do Teatro do Boi (Complexo Cultural do Matadouro). As selecionadas como as melhores do certame também integram a gravação de um CD para distribuição entre os foliões e divulgação nas rádios da cidade. Já as finalistas do dia 24 levam o prêmio de R$ 2.500 para Primeira colocação; R$ 1.500 ao 2º. Lugar e R$ 1.000 ao 3º. Lugar.

Estão no páreo cerrado, à final do Concurso temático, no uso de toda criatividade e ótimo humor, compositores do diverso aos estilos de marchinhas, marcha rancho, frevo, samba, axé, entre outros aproximados.

De peso ao 2° Concurso de Músicas Carnavalescas: “Se cochilar, o Cachimbo cai” – Abraão Lincoln; “Rumo ao Hexa” – Weidner Lima; “Saudade, Saudade” – Raimundo Nonato de Freitas; “Corpo Tatuado” – Abraão Lincoln e Roraima; “A Dilma me traiu” – Dário de Paulo; “Elétrica Musa” – Francy Monte, Osnir Veríssimo, Francisco Magalhães; “Força do Coração” – Leila Queiroz; “Frevo, Suor e Amor” – My Brother; “Bernardo Cruz” – Osnir Veríssimo, Antônio Carlos, Ézio Fernandes; “Chip na Cabeça“ – Paulo Moura e Mike Soares. 

Também na esteira foliã, o Concurso de Majestades do Carnaval 2013 ocorreu, na noite do dia 19 de janeiro de 2013, a partir das 20h, durante o tradicional Baile Carnavalesco da cidade que ilustrou salão e passarela no Jockey Clube de Teresina. Disputou o trono, de um ano de reinado do carnaval 2013, a energia concentrada em simpatia e animação, como prova de fogo a quem “tomou” para si o título conquistado na raça e samba no pé.

 As animadas Bandas musicais “Arrumadinho” e “Doce Ilusão” aqueceram o fervor da festa. E ainda teve o Balé da Cidade de Teresina que também mexeu seus pezinhos e corpo ardentes nessa hora de sambar.

Dos aspirantes às majestades, 27 inscrito(a)s. 9 candidatas concorreram ao status de Rainha do Carnaval e 8 pesos pesados disputaram o posto de Rei Momo. Na disputa do reinado da 3ª. Idade foram 7 concorrentes à Rainha e 3 candidatos a Rei da 3ª. Idade.

Os premiados, serão durante um ano as estrelas da vez. Empregarão força tarefa, a partir do dia seguinte em que recebem a honraria da faixa, para visitas às pessoas, moradores de abrigos e orfanatos, bem como a pacientes de hospitais da capital, levando a alegria e animação da realeza momesca. E o prêmio não é confete não, é bem real. É R$ 3 mil reais para o escolhido como Rei Momo e a mesma quantia à Rainha do Carnaval 2013. A premiação para o Rei e Rainha da Terceira Idade é de R$ 1.500 para cada.

Antes que tomem chegada, a todo vapor, os quatro dias de folia e alegria que caem na quarta feira de cinzas consumadas, ainda se verá na cidade, em toda sua tradição de carnaval que se pode ter, o Corso 2013. Dia 02 de fevereiro, dia de festa no mar de asfalto desde o balão da Ponte de Primavera, no cruzamento da Avenida Raul Lopes com a Avenida Petrônio Portela, numa onda distendida de alegria à Raul Lopes.

(foto/divulgação)

Para o maior cortejo popular do mundo, de veículos, foliões, alegria e fantasias, confetes, cortesias, serpentinas, energia, paz e harmonia em 10 quilômetros de brincar porque de ferro, nessa hora, só a força coletiva da boa diversão.

Então Teresina já sabe. Atrás da alegria só não vai quem já esqueceu o que é felicidade compartilhada. O + é só aquecer o tamborim do coração e reverberar o tinir da folia.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Ofício do Ator


 Ofício do Ator
por maneco nascimento

Arte do ator, como a natureza de luz e ocaso, está para brilhos e recolhimento, quando se abre ou se fecha a ribalta. Mas enquanto há um ponto de luz e um mapa dramático a ser explorado, lá está o artífice do fingimento e o artista da expressão de reinvenção de enredos, da mímesis destacada da vida imitada. 

Assim nasce o ator/atriz correndo atrás de uma vida de “mentira”, expressa como uma verdade, porque a práxis do(a) intérprete é a do convencimento.

No último dia 15 de janeiro de 2013 foi reaberto um dos projetos de iniciativa cênica + legais aos dias da urbe. O idealizador do evento João Vasconcelos. O local de competência de acontecer, o Bar do Clube dos Diários. A geografia da cena, entre as mesas e clientes. O nome do Projeto “Eu, você e o Teatro da minha Vida”, reaberto ao exercício de 2013 às Terças Cênicas do BCD.

Projeto simples. O artista se agenda e faz a sua parte. Manda ver na terra de domínio de seus pés. Em meio aos burburinhos do carro que passa, do transeunte que para, olha e se se interessa e estaca por um período de tempo para acompanhar uma manifestação da arte da cena. A cenografia técnica do espaço, um ou dois pontos de luz que pendem do teto do Bar para abrir luz ao artista. Cenário e adereços vêm no matulão do(a) performer. O resto é arte do(a) artista.

No último dia 15 de janeiro, a partir das 19 horas, foi a vez do espetáculo-performance “Chuva Ácida” sinalizar as entradas e bandeiras do Projeto ao ano 2013. Com texto de Valdir Medori Jr. e interpretação delicada de Jean Pessoa, “Chuva Ácida” se desenvolve a processo de mergulho do intérprete-criador em que Jean se permite pela auto-direção de mapa dramático. 

O material de processo apresentado, segundo o próprio Pessoa, um experimento para texto curto que, numa busca sua a exercício de cenas curtas, descobriu numa garimpagem direcionada. Bateu os olhos em “Chuva Ácida” e achou a pérola desejada. Um texto de 2008, de autor definidor, em síntese, da alma humana através de dramaturgia literária à cena que especula um futuro (presente) de desordem climática, ou intrínseca acidez humana e mortal.

A chuva é a ameaça de derretimento das gentes. Nas falas da urbe representada, um discurso de memória de abandono, de idades e faixas etárias comparadas e ou revigoradas ao nostálgico amargo e reflexões acerca do futuro de ameaças advindas em sinais dos tempos de hecatombes, disfarçadas sob licenças poéticas e ironias ácidas da natureza do homem (genérico).

O tempo de quem? Dos pais, das crianças, dos jovens, da nova cultura de valoração de novas “frescuras”?. O tempo sem tempo dos velhos tempos. Sem tempo às doces felicidades desperdiçadas, ou preteridas pelas vezes de quem dita a ordem do tempo. O tempo de ninguém? 

(...) Na minha época não tinha dessas coisas não. A gente podia andar na rua sem guarda-chuva, sem óculos escuros de sol (...) Enquanto os velhos comiam churrasco e bebiam cerveja, caipirinha (...) A época era deles, não minha (...) A mulher do tempo falou que vai parar de chover amanhã. Elas sempre erram (...) A chuva derreteu os fios. Black out na cidade... Se continuar chovendo assim...

Na dramaturgia do ator/diretor, vencer o medo e sair à rua protegido de guarda-chuva (minimalista). Um todo enredo econômico, elaborado na esteira de texto sintético, possibilita ao público, envolvido enquanto assistência, uma sensação de beleza introspecta. 

Uma estética aplicada ao corpo que fala, queimando expectativas, ardendo possibilidades de sobreviver à “Chuva Ácida”, que cai lá fora e encharca aqui dentro, a mente da platéia.

Valdir Medori Jr., “Chuva Ácida” e Jean Pessoa, uma sintonia expressiva. Obra aberta para escolhas ou não escolhas de avançar para a chuva. Os artistas estão encharcados pela obra. Derretem o selecionado entre o cascalho e dão brilho à cena brasileira.