sábado, 23 de junho de 2012

Balaio cultural

Balaio cultural
por maneco nascimento

Um furacão, de sons, luzes e cores, alegria e cena coroada, passou por Teresina entre os dias 16 e 17 de junho e deixou desalinhado o terreiro do teatro local. Para quem pode experienciar a práxis cênica do coletivo de Clowns de Shakespeare, Grupo natural de Natal, Rio Grande do Norte, não se arrependeu do que presenciou.

No balaio do
 Grupo, uma montagem divertida, irreverente, classuda e, especialmente, muito requintada em tratamento ao teatro popular de um clássico de William Shakespeare, Ricardo III. No quintal do Teatro Municipal João Paulo II, dia 17 de junho de 2012, a partir das 19 horas, um doce deleite à assistência, através da linguagem clownesca burilada. Foi vista pelo viés particular de leitura do Grupo Clowns de Shakespeare, Fernando Yamamoto e Gabriel Villela a conta perolada Sua Incelença, Ricardo III”.
                                          (Sua Incelença, Ricardo III/foto: Pablo Pinheiro)

E, de saída,
 a agremiação deixou aos leitores da cidade e artistas da cena a Revista Balaio (Ano I, No. 01/set. 2009). Uma publicação do Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare. No sumário, destaca-se em capítulos, o processo de (re)invenção de Sua Incelença, Ricardo III”. Abre a revista o artigoMemórias de coletivos teatrais: breves apontamentos de percursos e andanças” (pags. 8 a 13), deAlexandre Mate, educador do Instituto de Artes da UNESP, da Escola Livre de Santo André e pesquisador de teatro.

Todo
 o restante da edição está dedicado ao Dossiê Ricardo III, para tornar público o Projeto Caravana de Investigação Teatral: Ricardo III, desenvolvido no segundo semestre de 2008, em cinco etapas, para cinco cidades potiguares(Angicos, Assu, Santa Cruz, Currais Novos e Natal). Projeto facilitado pelo BNB – Programa BNB Cultura 2008, engajou oficinas a partir da obra Ricardo III,interagindo experiências com artistas e grupos locais das cidades escolhidas.

Fernando Yamamoto, da trupe Clowns de Shakespeare, apresenta o Dossiê Ricardo III e assim se declara envolvido Somos mais uma vítima da cruel sedução de Ricardo, o Duque de Gloster. Junto aos seus comparsas Márcio, Jan e Gabriel, Ricardo nos envolveu de uma forma que não temos mais como escapar (...) Durante essa mesma residência em São Paulo, outro grande mestre surgiu no nosso caminho, o encenador Gabriel Villela (...)” (Yamamoto, Fernando. Dossiê Ricardo III – Apresentação/Revista Balaio, pags. 14 a 17)

O Processo de investigação de construção da encenação é dividido em atos e, para o Primeiro Ato, Angicos, o relato da experiência na primeira cidade é realizado pela integrante do Grupo, Renata kaiser. “A primeira cidade a receber a Caravana de Investigação Cênica é mundialmente conhecida pelas experiências pioneiras do educador Paulo Freire (...) Ao longo de uma semana, o grupo se deparou com o desafio de apresentar um texto clássico a um público com pouco hábito na leitura (...) A cada dia da semana foi trabalhada uma cena do ato I, (...)” (Kaiser, Renata. Primeiro Ato, Angicos/Idem. pags. 18 a 23)

Dando prosseguimento à nossa Caravana de Investigação Teatral, partimos para a execução da segunda etapa do nosso projeto, desta vez na cidade de Assú. O objetivo é desenvolver uma exploração cênica sobre o segundo ato da peça Ricardo III, de William Shakespeare. Na bagagem, levamos a experiência e o aprendizado da realização da primeira etapa em Angicos e, a partir disso, a certeza de que precisávamos fazer uma boa revisão em nosso plano pedagógico.” (Ferrario, César. Pelas bandas do Piató/Idem. pags. 28 a 35)

Ferrario apontou resultados investigativos do segundo ato e Fernando Yamamoto atos de experiências à base do terceiro. 

Santa Cruz foi a etapa mais difícil e delicada deste projeto e, em decorrência disso (e dos resultados que conseguimos alcançar), a mais recompensadamente também (...) Acabamos por fazer um recorte do nosso universo de trabalho (...) apenas a cena 9, que nos pareceu trazer um conflito mais explícito (...)maiores possibilidades de provocar o jogo entre eles.” (Yamamoto, Fernando. Entre a Cruz e a Espada/Idem. pags. 38 a 41)

De novo, Fernando apresenta respostas conseguidas, dessa vez ao IV Ato.

A chegada a Currais Novos, portanto veio cercada de uma grande expectativa por parte de todos nós (...) Cheguei ao Seridó na quarta feira, já sob uma enorme expectativa criada pelas notícias dos meninos durante os dois primeiros dias de trabalho (...) criamos um jogo muito dinâmico entre os grupos, no qual a história do Ato IV era contada. Claramente conseguimos, ao final do projeto – ou suposto final, já que resolvemos criar um bônus em Natal, com o Ato V – (...)” (Yamamoto, Fernando. O javali sanguinário no Seridó/Idem. pags. 46 a 49)

O processo do Ato V – Natal é apresentado por Marco França, o ator que compôs a personagem chave de Sua Incelença, Ricardo III”. Aponta Após quatro cidades, três traduções, uma média de oitenta alunos, alguns muitos quilômetros percorridos, dezenas de “muriçocas” mortas e uma quantidade imensurável de conhecimento construído aportamos, finalmente, em terras doces de um lar por vezes distante: Natal.” (França, Marco. Ato V – Natal/Idem. pags. 52 a 58)

Esclarecida de forma pontual a pedagogia construtivista do espetáculo, ainda há os bônus que complementam a passagem da Caravana, em que outras “feras” lavram a impressão do projeto costurado. Ayra Moabb Monteiro Pessoa, pedagoga de Angicos, apresenta o poema Clowns de Shakespeare em nossas vidas” (pags. 24 a 27); o ator e professor de letras, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, traz seu olhar sobre o (...) sonhar e vislumbrar a magia do teatro(...)”, em "Para Contar uma história" (pags. 36 a 37)

Há, ainda, o Mão dupla” (pags. 42 a 45), texto do comunicador, agente cultural e secretário de cultura da cidade de Santa Cruz até 2008, Iranilson Silva; Ana Carla Azevedo, atriz do Grupo Empório Dell’Art, de Currais Novos, se expressa por Aos Clowns”(pags. 50 a 51). A atriz Titina Medeiros, do Grupo Carmin, convidada a participar da montagem investigada, escreve Um Shakespeare que me revela um Nordeste”(pags. 59 a 61).

Por fim, a reprodução de uma conversa franca, mediada pelas novas tecnologias, entre duas gerações de pensadores e tradutores de Shakespeare. Um bate papo virtual que reuniu Aimara Resende, presidente do Centro de Estudos Shakespearianos (CESh), no Brasil, e Marcos Barbosa,jovem e premiado dramaturgo cearense, radicado em Salvador e professor da UFBA. O tema, W. Shakespeare e sua obra Ricardo III, no capítulo intitulado fricções” (pags. 62 a 69)
                                          (Sua Incelença, Ricardo III/foto: Pablo Pinheiro) 

A
 Revista Balaio, uma experiência registrada de processos de delicada riqueza à cena brasileira. Há muita gente pensando o teatro nacional de forma séria e concentrada. O Grupo Clowns de Shakespeare, de Natal, RGNorte, possibilita, ao público curioso e afim, um balaio de cultura trabalhada. E deixa em seu rastro uma saudade alegre da cena ampliada. Evoé, belos artistas!




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