domingo, 4 de dezembro de 2011

Cultura dos cercados

Cultura dos cercados
por maneco nascimento
Não é de hoje, nem será tema do passado, as divisões sociais, as separações de classes, as pirâmides (assunto histório-geográfico, repassado nos bancos escolares da educação básica brasileira) que ilustravam perfis sociais. Essas pirâmides parecem ter desaparecido do ensino formal, mas na cultura “subjetiva” de separação e linha divisória de valoração e status sócio-econômico, elas são dinastia imposta.
(imagem castelo medieval/acervo: colunistas.ig.com.br)

Em épocas remotas de conquistas e invasões, os mais espertos aprenderam logo a construir suas cercas, muros, muralhas, castelos e fossos, burgos e proteções pagas ao generoso protetor. Os exemplos, herdados à posteridade, advindos da idade pré-medieva, medieva ou posterior, são os castelos nos + diversos sítios geográficos do mundo civilizado.
(imagem o Castelo/acervo: castelosmedievais.blogspot.com)
A função das fortalezas era, naturalmente, de proteção e separação do trigo e joio insignificantes daquilo que, àquela época, havia como referência de estilo de melhor resultado da colheita social. O mundo civilizado tratou, com muita inteligência, de aplicar seus tratados de boa convivência e divisão de dotes, bens e limites geográficos. Defender seus tesouros tangíveis e intangíveis.

(imagem castelo medieval/acervo: badajozcapitalenlafrontera.110mb.com)

O mundo evoluiu a galope e com ele novos desafios e novos perfis sócio-econômicos. Os burgos transmutaram-se para grandes centros urbanos e seus escritórios comerciais e suas máquinas de produzir lucros. A burguesia revolucionária oitocentona, em renovada capa, foi alcunhada de fedorenta pelo poeta contemporâneo Cazuza.
(imagem casa protegida/acervo: cercaeletricaresidencial.com)

Em qualquer momento da evolução da raça, tanto em países civilizados como nos + arcaicos, sempre houve dicotomias quer para castas, ou para eufemismo + limpo de sofrer ataques diretos. Quem tem pode, quem não tem que pudesse. O Brasil, em estatística do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, repete dados para os + pobres e os + ricos.
O Portal Educacional – 1999/2011 – Central de Atualidades, em artigo, de 24/10/2007, sobre educação e concentração de riqueza, “Brasil: mais rico, mais pobre.”, aponta, ao tratar de duas estudantes da oitava série do ensino fundamental, uma da grande São Paulo e outra de Curitiba, que as diferenças entre as garotas vai muito além dos + de 400kms que as separam. A curitibana está entre os 10% da população + rica do país. A parcela brasileira que gasta dez vezes mais que 40% dos que possuem menores rendimentos.
A constatação, constante no artigo, resultou do estudo divulgado pelo IBGE, a partir de dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2002 – 2003, sobre perfil de despesas e rendimentos de famílias brasileiras. A Pesquisa demonstra que, em 2003, 40% das famílias que apresentavam baixos rendimentos (até R$ 758,25) tinham uma despesa per capta de R$ 180,00, enquanto 10% das famílias brasileiras mais ricas (renda a partir de 3.875,78) demonstraram ter uma despesa per capta de R$ 1.800,00. Concluindo-se que o grau de desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres é de dez vezes. (Idem)
A perpetuada concentração de renda, dos + ricos brasileiros e suas vidas de posses, também é constatado em Estudo sobre desigualdade e justiça tributária ao sinalizar queO décimo mais pobre sofre uma carga total equivalente a 32,8% da sua renda, enquanto o décimo mais rico, apenas 22,7%. Isso provoca a perpetuação do efeito ‘concentrador de renda’, inaceitável num país com acentuada desigualdade de renda como o Brasil.”( POCHMAN, Márcio.Desigualdade e Justiça Tributária. Brasília: IPEA, 15 de maio de 2008, p.3.)*
O que concentração de renda e pobreza teriam a ver com cercas, muralhas, fortalezas e proteção individual. Talvez o fato de os + pobres, constituídos nas franjas sociais brasileiras do mundo rico, tornarem-se uma qualquer ameaça ao concentrado patrimônio da parcela + rica.
(imagem muro eletrificado/acervo: portofeliz.olx.com.br)
 As cercas eletrônicas, as câmeras públicas e indiscretas, os circuitos fechados das fachadas e interior de mansões, bancos, financeiras e vidas privilegiadas respondem sobre a síndrome do cotidiano enjaulado.

 No dia 19 de outubro, em comemoração ao Dia do Piauí, o governo do Estado construiu cercado privilegiado na calçada/passeio do Theatro 4 de Setembro. O chiqueirinho reservado serviu para proteger os convidados e agraciados com a Medalha do Mérito Renascença, de distribuição generosa governamental.
No último dia 01 de dezembro, o Theatro 4 de Setembro recebeu o mesmo “mètier” para evento da empresa Clube de Televisão. Seria o resultado do "Prêmio Walter Alencar de Propaganda". A calçada/passeio de paralelepípedos, interditada para festa, recebeu tapume de proteção aos que precisavam estar guardados dos olhos dos comuns.


(arte "Prêmio Walter Alencar de Propaganda"/acervo: TV Rádio Clube de Comunicação)

Bom, se esse novo modelo de cerca, ou muralha forjada às portas da Casa de espetáculos não for para proteção dos + ricos dessa gleba local, então o patrimônio estaria sofrendo agressão de decisão governamental. Esdrúxula, mas nova rica de intenções privadas. Talvez as “cerquinhas” guarneçam quem + precise desse direito reclamado e pago.
(imagem casa eletrificada/imóveisculturamix.com)
Havia um tapume no meio do passeio público. Quem mandou, parafraseando o poeta, o indivíduo ousar passar em área de proteção da parcela de poder de riqueza. Na nova cultura dos cercados, a vida é contumaz como o mito do eterno retorno. Rituais reatualizam-se sempre.

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