quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Um outro Brasil


Um outro Brasil
por maneco nascimento

 Diz a lenda urbana que certa feita Os Beatles foram tocar em grande evento na Inglaterra, com a presença da rainha Elizabeth e, em determinado momento, um dos componentes da banda teria dito “os pobres batem palmas, os ricos sacodem as jóias”.

Recentemente, na coluna de Mônica Bergamo, ilustrada/Folha de São Paulo, de 25 de setembro de 2011, com temaEscondendo O Ouro”, a jornalista recolhe depoimentos de empresários, empresárias e seus cônjuges, médico, entre outro (a)s pessoas que, ou já teriam sofrido um assalto a jóias particulares, ou tiveram patrimônio levado no assalto aos cofres do Itaú.
(fotos e imagens de jóias: Gil Sousa/moments particulares)

Entre depoimentos, há o de pessoas com estratégias de esconder jóias na boca até chegar ao local do evento para evitar assalto, ou manter jóias verdadeiras em algum banco e outras de menor valor em cofre doméstico para o ladrão. O uso de jóias(bijouterias), mesmo as mais elegantes e trazidas do exterior, parece ser a solução para se livrarem dos assaltos, haja vista os assaltantes não se interessarem pelas imitações.
(fotos e imagens de jóias: Gil Sousa/moments particulares)
Depois do assalto aos cofres recheados do Itaú, parece pairar um sentimento de que não há mais opção segura. Não seria mais possível ostentar riqueza no Brasil. As jóias deixaram de ser um investimento. 
As técnicas variam. Algumas guardam na boca. Outras aconchegam nos seios. Há quem até camufle no pote de açúcar. São anéis, gargantilhas, braceletes e brincos que elas não se arriscam mais a exibir. Entre sair de casa e chegar a um evento, inventam todo tipo de malabarismos para evitar assaltos”. (Bergamo, Mônica. Escondendo O Ouro. Folha de São Paulo/ilustrada. E2, 25 de setembro de 2011/bergamo@folhadsp.com.br)
 (foto: 4freephotos)

Dos depoimentos recolhidos, o mais comovente foi o de que “(...) outro cliente, um homem mais velho, está inconsolável porque perdeu cartas de amor da vida inteira (...)” (Idem). Outra informação preciosa é a de que as jóias arrastadas dos caixas-fortes do banco, havia peças, entre outras, avaliadas em R$ 70 mil reais. Ou que alguns clientes de joalheria famosa já haviam ido repor as perdas.
 (foto: 4freephotos)


Sapatos caros, jóias milionárias ou cartas de amor, cada um dos objetos adquiridos e guardados tem seu valor e seu contexto de apego particularizado. Prefiro as cartas de amor, mesmo que ridículas, mas ai há um julgamento muito privado. De sorte é que aos “podres de ricos” com poder e ostentação ameaçados e também aos miseráveis brasileiros com sua jóia da esperança à força de fênix, não tem sido muito fácil resistir a dias melhores.

Desaparelhamento do serviço público de segurança, fortalecimento da ousadia e da técnica de sobrevivência da criminalidade, índices de corrupção e impunidade incorrigíveis dentro e fora dos aparelhos reprodutores da violência.  Para outros contextos os compositores criaram “(...) O Brasil não merece o Brasil (...) Do Brasil SOS ao Brasil (...)” (Querelas do Brasil/João Boco e Maurício Tapajós). Há um outro Brasil que parece nos surpreender, ou talvez não. Só esteja mais revelado, mais sem qualquer escrúpulo

Ficha suja, ficha limpa. Quem se importa? Creio que os que batem palmas quando não estão ralando a sobrevivência. Não que os ricos não tenham juntado seu dinheiro com trabalho, claro que sim. Também promovem seus resultados. 

Para berços de ouro ou de palha, vive-se um cotidiano enquadrado na lei dos sem lei. As cercas, as câmeras, as casas fortes e as muralhas instransponíveis são superáveis. Na periferia e subúrbios das gentes simples as portas e janelas também estão protegidas por grades, mas ameaçadas.

Há um Brasil que precisa ser resgatado. Esse outro que se vislumbra parece insustentável aos de bem. Deve surgir uma nova geração de brasileiros que precisará ser a salvação da lavoura e o milagre deverá estar no homem (genérico) e na nova atitude.

A jóia a ser lapidada não precisa de caixa forte, mas precisa ser a fortaleza da sobrevivência do Brasil.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

E nosotros?


E nosotros?
por maneco nascimento

Enquanto que, no Brasil, o Estado abandonou a sociedade, os ricos demonstram maior ostentação e desprezo pelos pobres do que em qualquer país do mundo. Apesar disso, os brasileiros ricos são pobres. Continuam na pobreza porque compram sofisticados automóveis importados, com todos os exagerados equipamentos da modernidade, mas ficam horas engarrafados ao lado dos ônibus desconfortáveis, lotados de trabalhadores das grandes periferias e dos subúrbios”. (Carlos Humberto Campos, Sociólogo, Vice-Presidente da ASA BRASIL e Assessor da Cáritas Brasileira Regional Piauí)

Recentemente Teresina, leia-se a dos estudantes, desempenhou papel fundamental à retrocessão da política amiga governo municipal aos empresários de transportes coletivos. Após uma decisão empresária de aumentar a passagem de ônibus de R$ 1,90 para 2.20, os estudantes da cidade disseram não à arbitrariedade do aumento escorchante.
  (estudantes em frente a PMT/foto acervo: www.pstu.org.br)

O tom abusivo e determinante do aumento por deter o poder local, azeitado pelo caminho privilegiado e cheio de meneios de sobrevivência conveniente a quem melhor interessar e dar as cartas teve que amarelar. Os estudantes entenderam diferente a prepotência e, politicamente, deram uma resposta da sociedade mobilizada ao poder público oficial e ao empresário novo rico com postura regurgitada sob a égide de concessões de linhas de transportes hereditárias. 
 (movimento estudantil na frei serafim/foto acervo: www.pstu.org.br)

“(...) Aqui em Teresina, há muito tempo ouvimos falar em licitação para melhorar o transporte coletivo; Há muito tempo ouvimos falar em integração das linhas de ônibus; Há muito tempo ouvimos falar em melhores terminais de paradas de ônibus; Há muito! Entretanto, não há nada. Será que esse discurso também não é vandalismo institucionalizado, amparado por uma legislação que muito vezes prioriza os ricos em detrimento dos mínimos direitos dos pobres? (...)” (Idem)

Nunca em Teresina os estudantes haviam desempenhado tanto sangue no olho. E a reação veio como melhor julgou-se tratar o assunto. No final, embora a população tenha feito sacrifícios para deslocar-se e, premeditadamente, o transporte ter sido tangido ao planejamento empresarial, tentando impor um discurso próprio condenante, o SETUT não conseguiu que os cidadãos tomassem o partido dos donos de ônibus.
 ( estudante enfrenta polícia/foto acervo: manifestação.org)

Houve cortejos de pessoas de ponto a ponto de ônibus, houve problemas de atrasos, ou até de ausência de transporte para voltar para casa, mas não houve sentimento de revolta da população contra a manifestação estudantil. Os filhos de militares, professores, comerciários, ambulantes, empregados domésticos, funcionários públicos, entre tantos moradores de bairros de Teresina andam é de ônibus. 
 (estudante evita ser pisado pelo ônibus/ foto acervo: manifestação.org)

As gentes simples dos bairros e periferias da cidade sabem o valor real de se pagar passagens de serviço precário e concessionado do transporte coletivo “generoso”, oferecido ao cidadão teresinense. Quais prejuízos tiveram os empresários de ônibus? Quais prejuízos tem-se nosotros?
Ônibus lotados, atrasos incorrigíveis, passagens caríssimas, donos de empresas de ônibus choramingando prejuízos que não se sabe de onde saem, porque se paga passagem todo dia. E muita, mas muita gente pega ônibus e ninguém anda de graça. Aliás, tem-se visto o tratamento dado a idosos e, por vezes, a outros cidadãos com direito a passe livre.

Coragem e sangue livre teve a Teresina estudantil que obrigou o poder a capitular. “(...) Essa abandonada e excluída juventude, ainda tem que carregar as severas críticas e acusações dos chamados “Cães de Guardas” de um modelo Político e Econômico, que destrói vidas e aniquila os sonhos, em defesa dos lucros de gananciosos empresários! (...)” (Idem)
 (estudante detida pela polícia de choque/foto acervo: manifestação.org)

A sociedade brasileira parece ter-se habituado com a contumaz corrupção nacional, arraigada do Iapoque ao Chuí. Denúncias contra gestores públicos, meandros de envolvimentos nas instâncias judiciárias, legislativas e executivas. Apropriação indébita do recurso público, investigações freadas por barreira de fórum privilegiado, ou renúncia vazia, magistrados em relações estreitas com vias escusas de julgamento e privilégios “legais”.

Como diz o sociólogo, Carlos Humberto Campos, as autoridades brasileiras deveriam ser modelo e referência de conduta ética para uma juventude tão carente de bons exemplos e que viceja um futuro não interditado por atos ilícitos e políticos de postura duvidosa. 

 (polícia contra-ataca estudantes/foto de Valter Reis/publicada em nazarenofonteles.com)

“(...) antes de condenarmos a ação dos estudantes, é preciso que façamos uma reflexão mais apurada das verdadeiras causas e origens de tais comportamentos sociais (...) sinto-me feliz e nutro a esperança de uma sociedade melhor ao contemplar o rosto indignado de uma juventude que demonstra coragem de lutar pelos seus direitos, pela justiça e pela igualdade. A SOCIEDADE NÃO AGUENTA MAIS ESSE DISCURSO DOS “CÃES DE GUARDA” DE UM MODELO POLÍTICO FALIDO” (Idem).

Nosotros, de qualquer parte do Brasil, também buscamos garantias devidas pela soma de impostos pagos. Não são favores, mas direitos.




















sábado, 24 de setembro de 2011

Galeria Livre


Galeria Livre
por maneco nascimento

A Coordenação do XVI Salão de Fotografia de Teresina – Ano Antonio Quaresma resolveu dar uma esticada no evento e dividir com a cidade umas boas e novas imagens em espaços alternativos que chamam para o Bar do Clube dos Diários, Hall do Palácio da Música de Teresina e, naturalmente, a Casa da Cultura que recebe quatro exposições.

Na Casa da Cultura de Teresina – CCT , as exposições que envolvem o homenageado Antonio Quaresma (Pinacoteca da CCT); as fotógrafas Margareth Margoh Leite, Kátia Barbosa, Yala Sena e Amana Dias Cavalcanti (Varandão da CCT); os concorrentes e premiados (Galeria Lucílio de Albuquerque) e o autor de belas imagens da “América”, Jünger Heinemann (Varandão da CCT). Os resultados, só vendo.

O Palácio da Música recebe a exposiçãoVelha Nova Teresina”, ensaio fotográfico do jornalista Diego Iglesias e de Alex Fontenele. Reinventam memórias de recuperação, imagens de pessoas, momentos históricos, paisagens antigas e também atuais da cidade de Teresina.

Facilitam, ao observador, uma comparação das nossas sempre memórias, resgate de identidade cultural teresinense e valorização histórica do embora invisível, mas cidades recordadas pelo que já foram.

Agora, na Galeria Livre do Bar do Clube dos Diários tem uma exposição muito sensível também pelo olhar do fotógrafo, pela idéia proposta e pelo nada inusitado, mas diferente de apresentação do nu. O tema do ensaio fotográfico, “A Lembrança Esquecida – a candidez do fruto proibido à androgenia pós-moderna”.

A exposição que ganha espaço e corpo de visitação dentro da programação do XVI Salão de Fotografia de Teresina – Ano Antonio Quaresma, saiu na frente do lançamento do Salão e se assentou naquele espaço de movimentação cultural, durante a abertura oficial do Bar do Clube dos Diários, última segunda feira, dia 19 de setembro de 2011, a partir das 19 horas. Tomou chegada e ficará sob expiação até 22 de outubro de 2011.

 (fotógrafo Jader Damasceno/acervo portalaz)


O artista, Jader Damasceno, estudante do curso de comunicação social – jornalismo da UFPI, aluno inteligente e com tendência natural a tornar-se um fotógrafo de “mancheia” deu um tratamento sutil e sóbrio ao nu que apresenta ao público. Para édens, jardins proibidos, frutos maduros e corpos expressivos, não desgasta-se em gorduras nem saturamento ao apelo fácil.

Fotos em p/b, reproduz corpos masculinos e femininos em que revela e encobre sutilezas de mensagens pelas lentes concentradas. Detém o instante tranqüilo sem pressa de convencer.
 (foto de Jader Damasceno)

Convence porque é dada fotografia e, na sua estética, instantaneiza e friza a idéia premeditada.
 (foto de Jader Damasceno)

Jader Damasceno não só traduz um bom resultado fotográfico, como também atrai o interesse do receptor quer seja pelo cuidado com o fotografado, quer pelo tema escolhido e tratado com razão e sensibilidade em técnica de máquina quente.

Com o sugestivo temaA Lembrança Esquecida – a candidez do fruto proibido à androgenia pós-moderna”. Damasceno contempla olhares e recepções abertas e completa parceria com o XVI Salão de Fotografia de Teresina – Ano Antonio Quaresma e com João Vasconcelos, administrador do Bar do Clube dos Diários.
 (foto de Jader Damasceno)


Idéias e ações culturais transversalizam respostas práticas para arte e artistas envolventes e envolvidos. A Galeria Livre está chamando pra ser freqüentada. Cumpra essa agenda.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Olhares da cidade


Olhares da cidade
por maneco nascimento

Está aberta a temporada aos olhares de fotógrafos da cidade em clicks expostos. O XVI Salão de Fotografia de Teresina – ano Antonio Quaresma, aberto às 19 horas do dia 22 de setembro de 2011, na Casa da Cultura, traz uma imagem do momento e produtos fotográficos que Teresina gerou.
 (Quaresma: homenageado e Josy Brito: coordenadora do Salão/foto: acervo cidadeverde.com)


Com exposições na Casa da Cultura, Palácio da Música e Bar do Clube dos Diários dá-se um ponta-pé à nova partida de jogos do diverso de imagens e um pedal de estímulo aos clicadores e mágicos da luz e sombras.

(foto divulgação/acervo Salão de Fotografia de Teresina)

Na Casa da Cultura, se pode conferir as exposições dos selecionados e premiados, a das fotógrafas, a do homenageado desta edição e a do alemão em registro de identidades na América. A Galeria de Arte Lucílio de Albuquerque absorve os concorrentes selecionados e premiados.

Na categoria Ensaios Fotográficos, concorreram Brito Junior: “Alma de Vaqueiro”(fotos em cores); Maurício Pokemon: “Brasil mostra tua cara” (em p/b e em cores); Paulo Barros: “Janelas” (em cores); Aureliano Muller: “Encontro dos Vaqueiros no Vale do Sambito” (em cores); Edi 
Vasconcelos: “Terra de Santa Cruz” (em cores) e Lunara Marques: “Févor” (em preto e branco).

As temáticas aproximadas dos Ensaios, fé, religiosidade, manifestação rural e identidade social. Flagrantes distintos e iguais. O homem e sua hora, sua memória e sua história. Os premiados, Paulo Barros, com “Janelas”, que ficou com 1º. Lugar. Maurício Pokemon levou a Menção Honrosa comBrasil mostra tua cara”.

A categoria Individual concedeu o prêmio 1º. Lugar de Melhor Fotografia a Eduardo Marchão, com a imagemModernismo?” (em preto e branco). A Menção Honrosa ficou com Apócrifos” (em p/b). A categoria Novas Mídias premiou com o 1º. Lugar Danilo de Medeiros. Sua obraUm dia de Folga”.

Para o homenageado deste ano, Antonio Quaresma, a coordenação do Salão reservou a Sala da Pinacoteca da Casa da Cultura. O olhar de Quaresma, numa qualidade de quem aprendeu a ver um mundo de novidades através das lentes, apresenta fotogramas coloridos, abstratos, bananeiras, new yorks, tempo e identidades. Uma lente apurada.

No Varandão da Casa da Cultura duas exposições disputam sensibilidade e tino fotográfico para todos os olhares de recepção, “Fotógrafas” e “América”. A Exposição Fotógrafas reúne quatro mulheres e quatro lentes se encontrando com a profissão. Cada artista expõe suas visões em flagrante congelado.

Margareth Margoh Leite nos revela as peçasSem Título” (em cores). Yala Sena, registros em cores paraMeu Caro Amigo”; “Vivendo em Guarita” e “O Balanço da Caçamba”. Kátia Barbosa capturou quatro olhares para Sem Título” (em p/b) e Amana Dias Cavalcanti apresenta, em cores, “Microsaliência”; “Boi” e “Perspectiva Teatral”. O que as fotógrafas têm em comum, uma câmera, um instante transformado em idéia registrado e talento laborado.

A outra exposição que avança pelo Varandão da Casa da Cultura éAmérica”, de Jünger Heinemann. Um puto e concentrado olho para imagens em preto e branco em que capta cotidianos rurais e urbanos de glebas da América latina. Uma luz, um enquadramento e um mágico encanto de convencer pelo recorte de vidas depurado. 

Ciência e arte atomizados para registro da posteridade é o que se pode conferir nas exposições que preenchem os espaços da Casa da Cultura de Teresina e outros pontos da cidade, durante o XVI Salão de Fotografia de Teresina – ano Antonio Quaresma.
 (Quaresma: homenageado/ foto: acervo cidadeverde.com)


Aos amantes, curiosos, amadores e profissionais da fotografia acorrei, as exposições em memórias de fotogramas ao XVI Salão de Fotografia de Teresina ficarão em cartaz de 22 de setembro a 22 de outubro de 2011, das 8 da manhã até às 18 horas. Uma agenda cultural para não ser desprezada.
(foto divulgação/acervo anos anteriores Salão de Fotografia de Teresina)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

+ Um(a)


+ um(a)
por maneco nascimento

“(...) Duas semanas mais tarde, acesso o Portal SRN e me deparo com a manchete: ‘Homossexual é morto com requintes de crueldade em SRN’. Temi pela sorte da ‘Estrela Solitária’. A foto estampada no portal justificava o meu temor: era ela (...)” (Santos, Cineas. Um tango para Desirée [Echos da Chapada do Corisco]. Teresina, Jornal O Dia, 18 de setembro de 2011)

As velhas e escancaradas estatísticas assomam + um(a) brasileiro(a) que caiu em desgraça por ser “diferente”. Renato Tavares Piauilino, a Renata Desirée, natural de Coronel José Dias "(...) incômoda presença nas ruas de São Raimundo Nonato. Foi brutalmente assassinado com dois tiros de escopeta, à queima-roupa, na noite do dia 7 de setembro, nos arredores da cidade. A polícia, para variar, ainda não tem pistas do(s) assassino(s) (...)”
(Idem)

Sobram números e faltam atos reais de investigação e justiça quando o assunto é agressão e atentado violento, seguido de morte, contra homossexuais brasileiros. Sei muito pouco das estatísticas estrangeiras porque parecem + distantes, não que sejam de menor importância. Mas, sei das que rondam nossa convivência.

A Bahia conta, há muitos anos, com uma organização vigilante aos arroubos de determinado nicho da sociedade brasileira e seus desvios justificáveis para aplicação de justiça, intolerância e discurso moral e purista.

O Grupo Gay da Bahia tem aplicado esforços para manter o Brasil informado e pratica denúncias confiáveis acerca de crimes cometidos contra homossexuais nos centros de sobrevivência brasileiros.

“(...) Grupo Gay da Bahia divulga relatório ASSASSINATOS DE HOMOSSEXUAIS NO BRASIL (2005), com o perfil dos gays, travestis e lésbicas vítimas de crimes homofóbicos nos últimos 25 anos(...)” (ASSASSINATOS DE HOMOSSEXUAIS NO BRASIL : 2005/Grupo Gay da Bahia- GGB - www.ggb.org.br/assassinatos2005.html -)
(foto de homossexual morto/acervo: divulgação GGB - www.ggb.org.br/assassinatos2005.html )

Teresina, tida como cidade que transita entre o moderno e o “provinciano”, também mantém suas maneiras de manifestar o descontentamento com os “diferentes”.

Pelos fins da década de 1980 e anos 90, um grupo de bem nascidos, conhecido como “Turma do Melecão” foi o terror nas noites da cidade. Fazia das suas, num discurso de assepsia social? O GGB nos aponta que:

“(...) Entre 1980-2005, foram assassinados no Brasil 2.511 homossexuais, em sua maior parte, vítimas de crimes homofóbicos, onde o ódio da homossexualidade se manifesta através de requintes de crueldade como são praticados tais homicídios: dezenas de tiros ou facadas, uso de múltiplas armas, tortura prévia, declaração do assassino ‘matei porque odeio gay!’. Crimes cometidos por ‘pura maldade’, como qualificou a Delegada de Maracanaú, no interior do Ceará, ao encontrar o corpo completamente desfigurado do cabeleireiro Emanuely, 49 anos, morto a pontapés por dois rapazes machista, um deles, filho de um militar (...)” (GGB www.ggb.org.br/assassinatos2005.html -)

Figuras que circulavam pelas noites e vias do centro da cidade de Teresina, umas desapareceram, outras mudaram de endereço e algumas outras venceram, com coragem e determinação, a tirania daqueles que acreditam ter poder de definir quando e quem pode ocupar espaços públicos.

“(...) Dentre as vítimas, 72% gays, 25% travestis, 3% lésbicas. Para uma população estimada em 20 mil indivíduos, as transgêneros (travestis e transexuais) são proporcionalmente mais agredidas que as lésbicas e gays, que somam mais de 18 milhões de brasileiros, 10% da população (...)” (GGB - www.ggb.org.br/assassinatos2005.html -)
 (profissional da noite/imagem da web)

Alguns exemplos de desaparecidos em Teresina ou em outras praças brasileiras, Carlos Suely, Maria-Maria, Renata Desirée, Emanuely, entre tanto (a)s são só uma revelada e pequena ponta do iceberg.

“(...) De acordo com o Relatório Anual de Assassinato de Homossexuais de 2010, divulgado essa semana, foram oito piauienses que perderam a vida por terem uma escolha afetiva diferente da maioria (...)”. (“Número de crimes homofóbicos cresceu 31,3% em 2011, no Brasil, em relação a 2010”/meionorte.com/geral/06.04.2011, 08:13h)

O brasileiro não aprendeu a conviver com o diferente. Circunstâncias que envolvam etnias, orientação sexual e liberdades de expressão parece que sempre estarão sujeitas a reforçar números às vítimas de agressão e intolerância.

“(...) No Brasil registra-se, portanto, um crime de ódio anti-homossexual a cada 3 dias. Dois por semana. Oito por mês. Uma média de 100 homicídios anuais. A partir de 2000 essa média vem aumentando: 125 crimes por ano, sendo que em 2004 atingiu o recorde: 158 homicídios(...)” (meionorte.com/geral/06.04.2011, 08:13h)

Quem mandou o gay e o travesti atravessarem o caminho da sociedade justiceira e afeita a grupo de extermínio e limpeza social?

“(...) Dentre os mortos, 117 gays (59%), 72 travestis (37%) e 9 lésbicas (4%). O risco de uma travesti ser assassinada é 262 vezes maior que um gay. Nos dois primeiros meses de 2010 já foram documentados 34 homicídios contra homossexuais (...)" (Vermelho Portal/WWW.vermelho.org.br/6 de julho de 2010 - 16h37)

As Desirées, Marias, Adelys e Emanuelys da vida, já são número na estatística hedionda de crimes brasileiros, mas serão também sempre um sinal de que embora tenham perecido também representam um dedo na ferida nacional como denúncia.

“(...) dos 198 assassinatos do ano passado indicam uma escalada, comparados com os 189 de 2009 e os 122 de 2007. O Brasil permanece com o triste título de campeão de homicídios contra GLBTs. É seguido do México com 35 e dos Estados Unidos com 25 mortes anuais (...)” (Vermelho Portal/www.vermelho.org.br/6 de julho de 2010 - 16h37)

O Brasil está em sinal de alerta e o brasileiro precisa aprender a tolerância e respeito à diversidade. O vizinho não precisa morrer porque tem orientação sexual diferente do padrão. Há espaço de convivência harmoniosa a todo cidadão.


domingo, 18 de setembro de 2011

Nara para sempre


Nara para sempre
por maneco nascimento

O Theatro 4 de Setembro recebeu, em seu palco para todas as cenas, a doce melodia em furacão sem fúria, mas força e energia da altas estações da natureza cultural sensibilizada. Desdobrados tons e sons sutis para bossas e outras nossas músicas relembraram em “Nara”, estrelado por Fernanda Couto, Rodrigo Sanches, William Guedes e Guilherme Terra as memórias musicais da inconfundível Nara para sempre.

O inteligente e bem resolvido musical “Nara” se não tivesse acuidade de resultado estético e artístico de cena, ainda assim estaria no lucro por brindar o público com sutil e quente roteiro/enredo da curta, mas emblemática passagem d’Ela, a menina moça Nara Leão.
 (Nara Leão: musa da bossa nova/acervo: divulgação)

 Que musa da bossa nova, abraçou com decisão o Tropicalismo, os sambas e reis da música do morro, Roberto & Erasmo e passeou por versões da composição de clássicos americanos, porque a música está na humanidade e não na forma.

O Texto, de Fernanda Couto, que protagoniza a cantora, e de Márcio Araújo, tem uma tessitura invejável de aglutinar comentários de narradores/atores e falas de memórias das entrevistas e bate-papos da rica vida de Nara. 

 (elenco de 'Nara": Fernanda, Rodrigo, William e Guilherme/acervo: divulgação)

Dramaturgia competente, de aproximação da personagem do público, refaz o caminho da artista sem melindres e pudores de classes e Ilustra os percursos musicais da ferrenha defensora da velha-nova MPB.

Nara e sua postura de política musical, cultural, artística e de direitos humanos repercutem até hoje ao histórico e imagem da artista brasileira. A Direção de cena elementa sinceridade contida e respostas diretas do público assistente que pareceu encantado por voltar ao túnel do tempo.

Fernanda Couto que toma chegada pelo público, com uma rosa branca na mão, desenvolve uma Nara econômica e sutil em desenho corporal e domínio da cena com tranqüila certeza do sabor do vinho degustado. Só deleite, prazer, respeito e talento praticado enquanto brinca de ser Nara. 
 (Nara Leão: delicada interpretação de Fernanda Couto/acervo: divulgação)

De Nara para Nara, Fernanda acerta na veia e veleja num barquinho para memórias de lobos bobos, açúcares e afetos, opinião, insensatez e outras raras histórias do cancioneiro nacional. Numa suave decisão de homenagear Nara Leão, o faz com requintado zelo enquanto narra, canta e se desloca na cena, tudo com graça e desvelo pensado.
 (a Nara de Fernanda Couto/acervo:divulgação)

Das costuras da dramaturgia textual aplicadas ao musical, ponto alto para “Diz que fui por ai” (Zé Kéti e H. Rocha); a inclusão de diálogos naturais sobre os famosos joelhos da Nara; a ilustração da doença que a vitimou depois de uma década; sua ida ao Japão e seus lapsos de memória provocados pela doença.

Não há momento desprezável. A cenografia (Valdy Lopes) de flâmulas de tecido algodão neutro, suspensas e sobrepostas ao fundo da cena, simples e simbólica. Memórias se enfileiram para curtas, médias e longas distâncias. O cenário se completa com sofá e mesinha, de apartamento zona sul, mimetizados com estúdio de ensaios para o real de músicos/intérpretes em cena. Não faltou o banquinho e o violão que arredondam a estética.

A iluminação, de André Boll, transmuta-se para cenário e artistas em cena com força de luz da história contada. Tem o calor de proximidade não só das falas das personagens reproduzidas, mas também da luz própria dos espíritos engajados na verdade artística de história contada.
 Os figurinos, de Cássio Brasil, acompanham muito de perto a sobriedade e cuidado dramatúrgico em reproduzir Nara. Elegante, discreto e prático para execução em trocas rápidas dos intérpretes e segue linha criativa, se não cronológica da personagem, mas de licença poética com riscos de muito acerto.

A Direção Musical, de Pedro Paulo Bogossian, vem madreperolando toda a ambientação sonora que, delicadamente, se vai absorvendo ao longo do enredo.  Deixa sempre um gosto de quero mais. Arranjos limpos e concorrentes a resultados de liberdades de arte renovada.

Em breves 60 minutos do musical “Nara”, de inteligente Direção assinada por Márcio Araújo, se guarda uma ótima lembrança de como as nossas memórias, quando melhor resgatadas, são responsáveis por prazeres inestimáveis.

Fernanda Couto, Guilherme Terra, Rodrigo Sanches e William Guedes são o show para nenhuma repreensão. Cantam bem, tocam sem deixar vestígios de falhas, interpretam com graça e talento trabalhados.
 (Nara e eles. elenco do musical 'Nara"/acervo: publicação)

O musical de Fernanda Couto e Márcio Araújo é de força irreprimível. É Nara para sempre e nada será como antes depois que o 4 de Setembro recepcionou, nos dia 17 e 18 de setembro de 2011, às 20 horas, “Nara”.

 E, parafraseando Nelson Cavaquinho “(...) depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidade (...)”, mas verdade em preces tocantes e musicais como as possibilitadas por esse grupo de artistas de força e equilíbrio artístico cultural “(...) nada mais”.




segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A cidade esburacada


A cidade esburacada
por maneco nascimento

Não é preciso ir muito longe, ou se deslocar em grande esforço de procura para ver que a cidade tem sofrido modificações em ruas e tem sobrado muitos buracos, depois do “servicinho” realizado pela Agespisa? As obras seriam para a substituição dos canos de ferro por outros de PVC. Até ai, de boas intenções de políticas públicas caras ao contribuinte, nada a reclamar.
 (vista áerea de Teresina/acervo: tripadvisor.com)
  
O problema é a herança que fica aos moradores das ruas e bairros por onde essa obra caminha. Andar de carro por ruas do bairro Monte Castelo, por exemplo, tornou-se um problema de polícia, já que de política administrativa municipal não parece ser.

Os locais em que foram realizadas escavações ficaram calçamentos desnivelados e muito barro vermelho e poeira povoando esses dias do sol inclemente. No período das chuvas deve ficar + grave.

Na Esmaragdo Freitas, bairro Piçarra, rua em que resido, ficou um trançado em percurso esburacado, pontos rebaixados do calçamento, total desnível de interesse em melhor finalizar os serviços “possibilitados” aos comunitários.

A dúvida é se as terceirizadas e empresas detentoras das licitações públicas estão satisfeitas com a pechincha, ou se fica mesmo no acordo de realização a negligência disfarçada.

De sorte é que nunca se sabe de quem seria a real responsabilidade de deixar as ruas e bairros como foram encontrados, antes das obras estruturantes de escoamento de água às residências.

A competência é da Agespisa, da empresa vencedora da licitação, da Prefeitura de Teresina? O contribuinte, como diz o ditado popular, é quem sempre paga o pato. E, se dormir no ponto, será o próprio pato, no pejorativo setentão.

Não tenho observado como essas obras se finalizam em áreas + nobres da cidade. Tenho visto, sim, nas ruas mais próximas do entorno do centro de Teresina por onde o serviço passou. O asfalto fica diferenciado também. Mas, nos circuitos naturais de trânsito, a maquiagem precisa ser melhor apresentada. Agora em bairro? Quem está vendo ou vai cobrar publicamente?
 (vista de Teresina/acervo: hipernovas.org)

Brasileiro, é tão bonzinha!”, dizia o jargão de personagem de programa de humor, encarnada pela atriz estrangeira Kate Lira. De fato, o brasileiro é tão bonzinho mesmo. Pelo menos há uma grande e boa parcela da população do país que paga as contas regulares, mantém os salgados impostos públicos sempre em dia, só atrasa prestação quando é impossível honrá-la e é pouco reclamão.

Buraqueira na porta de casa, poeira virando hábito contumaz no dia a dia e tudo a + pode parecer uma coisa normal, porque “no Brasil é assim mesmo.” Somos um país extraordinário! Polícia mata juíza, porque grupo de extermínio na terra brasis é coisa oficial.

Anões do orçamento, valeriodutos, dinheiro nas meias e cuecas, propinódromos a escolas de Brasília até os + distantes rincões nacionais, tudo é fichinha azeitada para terra de macunaímas e “firulas de imprensa”.
 (detalhe fachada Congresso Nacional/acervo: 4photos.net)

Os velhos verbos da corrupção ganham novas capas e desdobramentos insutis. Tomam-se de regras lupinianas ao Trabalho em fundações Pró-Cerrado; fundações psdsistas com assinaturas falsas, faxinas éticas desdobradas em discursos oficiais de mata e cura, ou para um morde e assopra parceiros de passado colados no calcanhar de eu quis eles. Tudo é mote à imprensa.

E, espera-se que a imprensa não seja amordaçada, senão será anarquia geral e irrestrita. Assim como toda a natureza humana, os vieses da notícia têm seu quinhão de maniqueísmo. Mas liberdade de imprensa ainda é Constitucional.

O direito a ter direito é direito de todos, de toda a imprensa, a de chapa branca e a de chapa neutra e “imparcial”.

Os do partido de melhor aparelhamento financeiro e político e classista popular clamam, em reuniões de companheiros, a reinvenção de estatutos ou lei de regulação da imprensa. Para os + esclarecidos, regulação da imprensa é Lei da Censura em eufemismo de bom moço com discurso disfarçado à auto-proteção.

O que corrupção e lei de regulação da imprensa (censura) têm a ver com buraqueira na cidade? Talvez nada, ou talvez tudo. Quem divulga e quem denuncia os buracos nas ruas da cidade? 

A quem se deveria recorrer para reclamar deveres do estado em respostas ao contributo cidadão? À imprensa fechada, à aberta ou a das redes sociais ilimitadas?

Nalgum espaço é preciso que se lembre aos políticos, empresários, empresas e convênios planejados ao oficio de políticas públicas que o deus das sociedades ainda é o povo. Ele parece ainda não ter entendido muito bem esse principio social de ação manifestada.

Quem nos salvará da buraqueira nacional? Ninguém menos que o direito cidadão.

Do harém ao Harém


Do harém ao Harém
por maneco nascimento

harém . [Do fr. harém ár. *arCm , 'aquilo que é proibido, ou que se deve manter fora de alcance, defendido'; 'objeto ou pessoa sagrada'; 'santuário, lugar inviolável'; 'a parte da casa reservada à mulher (e à qual um estranho não pode ter acesso)'; 'a(s) esposa(s)'.] S. m. 1. Parte do palácio do sultão muçulmano onde se acham encerradas as odaliscas; serralho. 2. O conjunto das odaliscas de um harém. 3. Parte da casa muçulmana destinada à habitação das mulheres. 4. Fig. V. prostíbulo. [Cf. arem, do v. arar.] (fonte: www.harem.blogspot.com.br/)

Surgido no ano de 1985, o Harém Pictures de Teatro/Grupo Harém de Teatro tinha em suas prerrogativas primeiras a abertura de canais e territórios para a cena que se propunha impor o homem brasileiro no centro da cena. Discurso dono das falas de qualquer projeto cênico nacional moderno, ele veio com a força do jovem Grupo piauiense para novas linguagens e signos transgressores.

Assim o Grupo Harém de Teatro desenhou a própria forma e determinou seu espaço de atuação e mercado de encenação, somando-se ao histórico do teatro local já existente e perseverante. Dos primeiros passos do Grupo, a montagemO trágico destino de duas Raimundas ou Os dois amores de Lampião antes de Maria Bonita e só agora revelados”, direção e dramaturgia de cena de Arimatan Martins, foi sem dúvida o grande começo de tudo.

Texto de Chico Pereira da Silva, uma das peças que compõe a Tetralogia "Raimunda Raimunda", que o autor piauiense, de Campo Maior, dedicou à amiga Fernanda Montenegro, no começo da década de 1970, já trazia uma renovada leitura para teatro de autor genuinamente afeito da identidade brasileira a nordestes descobertos no descentrado universo da fala nacional.

 (Cena dos caminhoneiros: Francisco Pelé, Airton Martins e Marcel Julian/"Raimunda Pinto, sim senhor!", de Chico Pereira da Silva)

Das outras peças da tetralogia, “Raimunda Jovita na roleta da vida ou Quis o destino: de Pucella e Ninon”, montagem do Grutepe, com direção e dramaturgia de cena de José da Providência; “Raimunda Pinto, sim senhor!”, direção e dramaturgia de cena de A. Martins, o maior sucesso de público, crítica e bilheteria do Harém, ficou no ar por 19 anos até fechar carreira em 2011 e “Ramanda e Rudá”, montagem de São Luis, do Maranhão, com direção do argentino Marcelo Flexa.
Das boas relações sociais, criativas e interacionais de estética e plástica cênicas o Harém de Teatro solidificou e parcerizou respostas e encontros não só com os diretores e atores que passaram pela carpintaria de Chico Pereira da Silva, como reiterou laços de amizades cênicas com o Brasil que parecia desdenhar a força do teatro amador do Piauí.

Na esteira do Grutepe, agremiação bem reconhecida fora das fronteiras do estado, o Harém foi furacão de defesa e renovação do olhar para a nossa cena e garimpou os + diversos prêmios comOs dois amores de Lampião...”, “Raimunda Pinto...”, “O Vaso suspirado”, textos de Chico Pereira eO Auto do Lampião no Além”, d’outro piauiense mágico à dramaturgia ao palco, Gomes Gampos.

Ampliando sua teia de autores nacionais montou, de Plínio Marcos, “O assassinato do Anão do caralho grande”, direção e dramaturgia de cena de Arimatan Martins; “Dois perdidos numa noite suja”, em parceria com o Extremo de Teatro, de Almada/Portugal e, repetindo a dobradinha de nações, “Quando as máquinas param”. As duas últimas montagens, direção e dramaturgia de cena de Fernando Jorge, diretor de teatro do Extremo.
 (elenco de "O Assassinato do anão do caralho grande", de Plínio Marcos)

 Nos 25 anos completos, O Harém devia-se um autor + ampliado das nossas fronteiras, mas não fora da identidade ibérica. Da nova investida, “A Casa de Bernarda Alba”, do granadino Garcia Lorca, um dos + montados e respeitados na cena mundial, também recebeu olhar de Arimatan Martins e grafou latitudes e longitudes na geografia dramtúrgica a nordestes e Espanha.
(Bernardas do Harém: "A Casa de Bernarda Alba", de Garcia Lorca)

 Do começo de tudo em que o trocadilho do nome de identidade do Grupo tinha relação direta com o enredo deO trágico destino de duas Raimundas ou Os dois amores de Lampião antes de Maria Bonita e só agora revelados”,em que o Rei do Cangaço mantinha um harém, para agrado e confronto da sultana Raimunda Borborema, a agremiação Harém ficou tendo como pedra base um elenco masculino, fazendo caminho inverso do harém de cultura muçulmana.

Esse harém às avessas rendeu “horrores” de sucesso. Com montagens em que homens fizeram as vezes de personagens femininas e sempre muito bem realizadas. Como diria o diretor Arimatan, em defesa de sua dramaturgia, era preciso que atores pudessem vivenciar, na cena, a alma e sentimentos femininos para compreender a força da mulher brasileira traduzida pelos autores.
(Cena da troca de maridos/"Raimunda Pinto sim senhor!", de Francisco Pereira da Silva)

Um Harém para todo o permitido, dentro do alcance e do defendido, estudo do objeto à ciência do sacro e profano, é santuário violável ao diverso das estéticas, lugar e casa reservados ao homem (genérico) e às falas do espírito universal. Nesse local causaria estranheza o não acesso a casamentos de linguagens e línguas próprias da cena.

O Harém de Teatro, nos seus 26 anos de história planejada, é espaço de homens e mulheres livres e receptáculo de arte e cultura do diverso do espírito humano.