quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Mar de belo


Mar de belo
por maneco nascimento

“(...) E eis que é chegado o momento de encontrar outros olhares, tecer outras redes, desembocar em outras águas e embarcar em viagens ímpares com tripulações a cada noite, sempre embalados no mal-me-quer-bem-me-quer do cair das pétalas que fazem esse mar que nos quer.” (A Outra Companhia de Teatro)
 ("Mar Me Quer"/foto: divulgação)

O Teatro Estação recebeu, fechando sua programação lusófona, um mar de beleza e poesia transmutada para a cena em “Mar Me Quer”, montagem dA Outra Companhia de Teatro, de Salvador, da Bahia, em 27 de agosto de 2011, no horário das 23 horas.

Texto/Inspiração nas veias lingüísticas de Mia Couto e Natália Luiza, com Direção/Dramaturgia de Luiz Antônio Jr., Adaptação para carpintaria de cena de A Outra Companhia de Teatro e Assistência de Direção de Israel Barreto e Hayaldo Copque, o espetáculoMar Me Quertem cheiro de maresia e sabor de terreno lambido pelo sal das marés e memórias praieiras.

A Direção Musical de Marco França para o repertório apresentado vai se derramando e embalando as memórias contadas e recontadas, enquanto os intérpretes vão intercalando-se nas mesmas personagens.

A Cenografia de Lorena Torres Peixoto, com Assistência de Maurício Dominguez é prática, funcional e de integração poética nas relações das personagens enredadas.

 A peça tem luz própria que assoma qualificável sustentação para as lâminas de AC Costa e Marcos Dedé. Os costumes, apresentados pelas costureiras Letícia Santos e Saraí Reis, arredondam as composições sobrepostas ao mapa cenográfico e se ampliam no contato com a Caracterização realizada por Luiz Santana e Catarina Rosa Campos.

Ainda estão na linha de frente ao resultado de “Mar me Quer” a Preparação Corporal de Fábio Vidal e a Preparação Vocal de Diana Ramos que fecham-se ao conjunto técnico com a Consultoria de Dramaturgia e Encenação de Fernando Yamamoto.

Há, na carpintaria dramatúrgica, um ambiente natural povoado de silêncios e ruídos de mares contados, tempos partidos e vidas reinventadas que se impõem à força de Mia Couto e sua literatura de identidade comum a qualquer universo conspirado.

As histórias contadas por Eddy Veríssimo, Luiz Buranga, Manuela Santiago e Roquildes Júnior têm força de crédito às verdades estabelecidas na cumplicidade do ato dramático. Um equilíbrio de falas, pensamentos altos e diálogos interagidos por oralidades de corpos e signos capturam inflexões e digerem zelo e cuidado ao ato doMar Me Quer” traduzido.

Luarmina, Zeca, Avô Celestiano e Agualberto devassam mar de memórias, navegam no sonho de perdas e recuperações e lavam nas águas ora turbulentas, ora de desejo, as calmarias que escorrem pelas vagas das horas velhas, das têmporas do amor e das sombras e luzes da morte.

Um libelo cênico-poético, inspirado na obra de Mia Couto, apresenta-se na fórmula lúdica dA Outra Companhia de Teatro e forma nova impressão de ver as falas do autor na távola do teatro.

E como A Outra Companhia de Teatro aplica ao programa do espetáculo “(...) nos envolvemos com cirandas encantadoras, despetalamo-nos em cada objeto espalhado no quadrado nu, tingimos nossa memória com as cores marinhas da fantasia dos senhores da pesca, nos descobrimos flor, mar, lua, pássaro e barco... afinal: ‘os olhos de quem amamos são um barco’ (...)” (Idem).

A Outra Companhia de Teatro espalhou suas águas e terras deMar Me Querpelo 4º. Festival de Teatro Lusófono – FESTLUSO e deixou gosto de sal na boca e réstia de sol na memória do público presente às horas embaladas no “mal-me-quer-bem-me-quer do cair das pétalas” que fizeram esse mar que nos quis a todos tomar.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O círculo de jaz


O círculo de jaz
por maneco nascimento

O Festival de Teatro Lusófono – FESTLUSO recebeu em sua programação para o Theatro 4 de Setembro, dia 27 de agosto de 2011, às 21 horas, a obra para cena de nova dança, fruto de criação de marcelo evelin/demolition inc./núcleo do dirceu, intituladaMatadouro”.
 (Elenco de "Matadouro"/foto: divulgação)

No programa apresentado ao público, a informação de que “(...) MATADOURO investiga o corpo como metáfora de um campo de batalha em que a luta travada entre o oficial e o marginal, entre a selvageria e civilidade, entre o território e o mundo globalizado, lança no espaço subjetivo e intermediário do “entre.” Nem lá, nem cá, o indivíduo avança na tensão entre seguir e desistir (...)”

O espetáculo visto se fecha em oito intérpretes, sete homens e uma mulher, numa variação para o mesmo tema em que a performance, durante mais de uma hora, se realiza em o grupo correr em circulo anti-horário. Estão em pelo e mascarados. 

Em alguns momentos alguém se desloca do desenho do círculo de jaz e evolui na periferia do núcleo em particularidades do intérprete-criador.

Perseguem, os intérpretes, a trilha original de Franz Schubert, “Quinteto em C Maior”. O público sujeito à premeditada encenação da marca repetida, pareceu desconfortar-se, mas educadamente manteve-se no batente da casa armada pela manifestação da dança contemporânea.

A quebra do lugar comum, talvez em fuga do transe do ruminar das vacas cansadas nas tardes de agosto, licença poética de H. Dobal, ocorre quando um dos de rosto coberto “dá o dedo” para os céus, quem sabe em sinal de anarquia, ou metáfora desdenhosa à terra que lhe nega abrigo, logo a “luta” repetida.

Investigação emprestada de uma parte do romance Os Sertões, de Euclides da Cunha, o capítulo da Luta, deixa sinal de recepção extremamente ampla para os que melhor possam assimilar de primeira e também para os que precisariam, quem sabe, buscar na poeira levantada pelos pés dos guerreiros da terra seca, sinal difuso nas marcas invisíveis e abstratas.

Em busca de recuperação de terra confiscada, marcelo evelin/demolition in. núcleo do dirceu (assim mesmo, grafado em minúsculo na capa do programa da peça) parece debater-se para novos perímetros de ciência da cena em misturas e combinações para as quais as matemáticas ainda se fecham em aritmética de dois e dois fechando em cinco.
 (Marcelo Evelin/diretor-coreógrafo de "matadouro"/foto divulgação)

A dramaturgia forjada pelos foles de hefestos parece não se reconhecer como da mesma matéria que constrói todo mortal. De ansiosa disputa por reconhecimento divino e limites de propriedade concentrados em poder de ades e zeus de barro, o discurso de emblemas e signos e siglas deMatadouroacaba em forçosa manifestação da justiça pública.

E, ao contrário do “círculo de giz caucasiano” (Bertolt Brecht – 1944/EUA) em que Grusche abre mão de Miguel para não machucá-lo, protegendo-o da disputa de poder da rainha Natella Abaschvíli, as falas e oralidades corporais deMatadouroconspiram a um eufemismo da guerra de amor maternal que, ao tentar puxar os filhos para fora do círculo estabelecido por Azdak, acabam condenando-os ao círculo de jaz.

O estupefato silêncio da platéia, ao final da leitura contemporânea para "Os Sertões", visionada por Marcelo Evelin e traduzida emMatadouronão deixa dúvidas do propósito planejado para o diverso das recepções que poderiam variar entre o entorpecido, o atônito, o assombrado e o estarrecido da assistência presente.
 (Elenco de "Matadouro"/foto: divulgação)

Matadouro”, em cena lusófona no dia 27 de agosto de 2011, deu seu recado e demoliu a comodidade da cidade de Teresina que, sob olhar da nova dança praticada, pode até negar terra e mar aos de sentimentos e vaidades divinos, mas teve que, por princípio da educação de província, ficar até o fim do desmanche da Luta em Os Sertões de olhar eveliniano.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Teatro do Divã


Teatro do Divã
por maneco nascimento

O dia 26 de agosto de 2011, às 21 horas, o Festival de Teatro Lusófono – FESTLUSO recebeu para o palco do Theatro 4 de Setembro, a montagemDesabafo”, aportada, em terras brasileiras, por força e voz do Grupo Teatral Craq’ Otochod & Atelier Teatrakácia, da Ilha de São Vicente – Cabo Verde.

A peça que começa com uma imagem de mulher em sono inquieto, tendo à cabeceira de sua cama e ao alto a presença de um homem que incrementa o drama enquanto toca ao violão e interfere no solilóquio da personagem feminina, traduz aos poucos uma dona de casa, mãe solteira, esgotada pela vida moderna.

Em choroso discurso e negação de conquistas femininas e de feministas a personagem tenta enveredar por momentos em que canta, desenvolve apologia de defesa da vida das mulheres de antigamente que viviam à proteção do homem e se esforça para transformar em engraçado o discurso “trágico” das falas que condenam determinados avanços da mulher.
 
A personagem muito cansada da sobrecarga de trabalho que tem que desembolsar pela sobrevivência, acaba transferindo para a atriz uma descarga de pequena compreensão sobre o que está discutindo e ou trazendo a uma sessão de divã.

Há uma fragilidade no mapeamento dramatúrgico. E pequena maturidade no tratamento dado ao texto panfletário e sem sustentação de carpintaria para cena proposta. A cenografia que se percebe, para o conjunto, aos poucos parece perder função direta de complementação do discurso literário.

Um grande sutiã vermelho, composto quase a limites do quarto da mulher, é um ícone talvez de representação física de por onde passa a pressão de sentimento fragmentado. Acima do sutiã, toca um menestrel, ou galanteador que, por vezes, quebra a barreira invisível e dialoga com a personagem de alma atordoada.

Abaixo da linha do peito cenográfico, sua alcova e limites em que desempenha marcas monocórdias e enfraquecidas pelo domínio restrito do corpo para a intérprete. Há ainda uma “arara” em que a mulher troca de roupa a cada possibilidade de ilustrar uma memória.

A iniciativa de cantar não ganha fôlego para o enredo desvendado. Também por não haver uma linha coreográfica de aproximação das partes musicais com todo o resto da cena dramatizada, há um deslocamento de intenção que não se aplica nem bem ao drama, nem ao ato musical.

A dramaturgia de Idalétson Delgado e Ivone Santos, a partir de e-mail recolhido da rede internacional de relacionamentos, é de efeito simples e quase ingênuo, mas reflete as experiências desempenhadas pelo Grupo em sua cidade das cenas. A característica de absorver informação globalizada e traduzi-la para ato de teatro é louvável.

A encenação de Idalétson Delgado não corrobora muito para resultado inteiro. A cena conspirada parece revelar + motivações da atriz que da personagem em construção. O elenco, Ivone Santos e Luís Baptista estão na vantagem do que lhes é solicitado.

Suas falas têm a força das emoções lineares e navegam dentro do previsível. Com + tempo de maturação poderão ganhar uma vida desligada do drama da caixinha mágica do mass média.

O Grupo Teatral Craq’ Otochod & Atelier Teatrakácia, da Ilha de São Vicente – Cabo Verde trazem sua maneira de interagir na lusofonia por aqui praticada e possibilitam que se veja cultura e identidade que por lá se exercita. 

O Festival de Teatro Lusófono abraça a cena de Ilha de São Vicente – Cabo Verde e felicita com os artistas daqueles sítios a boa presença por aqui festejada.

Teatro de Títeres


 Teatro de Títeres
por maneco nascimento

Em sua política de aproximar não só línguas de mesmo tronco lingüístico, mas também linguagens diversas do ato de teatro produzido aqui e alhures, o Festival de Teatro Lusófono – FESTLUSO ganhou público para todas as idades ao confirmar João Andirá, de Curitiba, no Paraná, e seu fabuloso teatro de marionetes, títeres e outras vidas animadas.
Com “Antenor e o Boizinho Voador”, João Andirá possibilitou à cidade de Teresina uma aula de prazeres elementados na fantasia, no lúdico e uma nova ânima à assistência enlevada com a mágica simples e duradoura na memória de quem conviveu com os bonecos de sopro de vida alegre e riqueza de emoções transferidas do artista/manipulador para seres (in)animados.

Com apresentações realizadas, dia 25 de agosto de 2011, às 21 horas, no Theatro 4 de Setembro e dia 27 de agosto de 2011, às 18h30m, no palco do Teatro Municipal João Paulo II, “Antenor e o Boizinho Voadorganhou asas da imaginação e contagiou todas as almas em expectativas livres de envolver-se no mundo encantado de títeres.
 (João Andirá: em desmanche de "o vivo carregando o 'morto'"/foto: divulgação)

Uma tenda comum; um vivo carregando o “morto” em as duas efígies do teatro; uma caixa de surpresas de onde surge a vida de encantos; um ator-contador de histórias que reinventa interações e “linka” a empatia do público ao aparelho de simplificadas magias à caixa cênica, terreno dos manipulados, e a polifonia das vidas ensejadas ao fantástico proposto.

A arte popular de mamulengos e títeres parece ter melhor sustentação no gesto apaixonado de quem domina a técnica. João Andirá e seu ofício andejam pela brincadeira com uma segurança invejável e para cada personagem trazida à cena, uma graça particular e um desejo incontido de sempre quebrar a quarta barreira da marca tradicional. Mérito alcançado, aparentemente, sem esforço.
Um menino sonhador que deseja ter seu boi voador; uma mãe quase gigante de amor para o filho e suas fantasias; um boizinho com decisões próprias, mas solidário com a fé fantasiosa de seu dono; um avô paciente; um macaco zuadento e esperto; pássaros falantes; desertos e rios desconhecidos e uma boa dose de mágica imaginação traduzem a fórmula muito eficaz por onde traqueja João Andirá.

As imagens e o texto popular enredam crianças e adultos para memórias inesquecíveis e risíveis do encantado mundo de  linguagens e falas para pequenos. “Antenor e o Boizinho Voador” segue uma linha tradicional da técnica de manipulação com interação direta com o manipulador em corpo e alma mimetizados.

Uma aula prática de eficiência e paixão pela arte de convencer que poderia ser melhor absorvida, com maior afã de integração, pelos profissionais específicos locais e ou artistas da cena de modo geral.

Quem perdeu as duas apresentações de João Andirá e seuAntenor e o Boizinho Voadorfica-se a dever nova oportunidade de aprender a aprender exercício prático e de beleza simplificada, doado por ator e sua metodologia coletivizados.

Parabéns ao FESTLUSO por flexibilizar oportunidades de encontros que integram culturas e línguas, linguagens e atos de cena diversos e deixam memoráveis alegrias em quem divide sua identidade artística com a cidade.

Evoé, aos artistas que levam consigo lembranças dos melhores ecos por cá repercutidos, as respostas do público presente ao Festival de Teatro Lusófono, e deixam na terra um pouco da diversidade de suas representações.


Línguas dialogadas

Línguas dialogadas
por maneco nascimento

O Teatro Extremo, de Almada, Portugal, em + uma investida no teatro sem fronteiras e reiterando a parceria festejada como o Grupo Harém de Teatro, brindou a cidade de Teresina com “Maria Curie*”, na programação do Festival de Teatro Lusófono – FESTLUSO, com duas sessões de espetáculo delicado e sóbrio para cenas e línguas.

Como texto russo original de Mira Michalowska e Encenação e Dramaturgia do paulista Sylvio Zibber, “Maria Curie” teve vida brilhante em palco local, em duas apresentações, uma no Theatro 4 de Setembro, dia 23 de agosto de 2011, às 21 horas, e outra no Teatro Municipal João Paulo II, dia 26 de agosto de 2011, às 18h 30m.
 (Isabel Leitão em "Maria Curie"/foto: divulgação)

O Teatro Extremo, com prática de cena rica já provada pelos sítios de cá, também dessa vez não se deixou intimidar. Em enredo que reúne cenografia de um balcão – laboratório e escritório de uma jornalista narradora, vai-se sendo enleado numa costura da vida da cientista de nascimento em domínios russos e laboratório de experiências francês.

Um caminho de luz que recorta, com precisão dramatúrgica, os ambientes de passagem da cientista em seus percalços e glórias de incisiva decisão de estabelecer-se como gênio de sua área, detém a atenção do público mesmo para texto + narrativo, centrado na história da mulher duas vezes laureada com Prêmio Nobel, de Física (1903) e Química (1911).

Mais de uma hora de história bem contada. Monólogos e solilóquios dialogados para línguas aproximadas em voz segura e projeção refinada de Isabel Leitão. Atriz, de delicados pisares na cena e emoções detidamente econômicas, enleia o público por segurança concentrada e inflexões para detalhes de delicados deleites de refletir a alma da personagem expandida.
 (Isabel Leitão: em "Maria Curie"/foto: divulgação)

Tranquila e em sereno abraço da dramaturgia digerida, Isabel Leitão encontra em Sylvio Zibber, desenhador da cartografia desvendada na cena, uma leve e solta desenvoltura para narrativa histórica de memórias recolhidas que, caso não houvesse um detido cuidado e uma estética de bom conhecimento de palco, não garantiria a fuga do enfadonho e do recurso, por vezes, didático.

um equilíbrio para balança da química profissional manipulada e uma devida atomização para físicos e maturos desembolsos de corpo contador da história que, para ensaios de resultados testados, reorienta a física da encenação sem perder a experiência para o lúdico e o fantástico do teatro e ciência combinados.

A música pesquisada que ilustra a trajetória de montagem àMaria Curiepreenche as veias e canais da matéria celebrada em que a verdade nuclear transforma-se em “mentira” premeditada para requintados efeitos da arte de fingir. Isabel Leitão traqueja com liberdade de maturidade de intérprete e encontra porto seguro no mapa do diretor da encenação.

Texto e história de personagem polaca, memórias de França e outras praças, encenação e dramaturgia de diretor paulista, interpretação de atriz portuguesa, palco de representação piauiense e cena de identidade lusófona.

Uma elaborada experiência para respostas diversas e aplicações acertadas.

+ uma vez o Festival de Teatro Lusósofo – FESTLUSO confirma safra a vinho com sabor agradável. Harém de Teatro e Extremo de Teatro reafinam lingüística de cena ampliada e reiteram arte de conhecimento e aproximação para sítios de Portugal, África e + terras abraçadas para oralidades sem tradução.

Serviço: Marie Curie, nome assumido após o casamento por Maria Skłodowska, (Varsóvia, 7 de Novembro de 1867 — Sallanches, 4 de Julho de 1934) foi uma cientista polaca que exerceu a sua actividade profissional na França. Foi a primeira pessoa a ser laureada duas vezes[1] com um Prémio Nobel, de Física, em 1903 (dividido com seu marido, Pierre Curie, e Becquerel) pelas suas descobertas no campo da radioatividade (que naquela altura era ainda um fenómeno pouco conhecido) e com o Nobel de Química de 1911 pela descoberta dos elementos químicos rádio e polônio. (Wikipédia, a enciclopédia livre. acesso 29.08.2011, às 11h40m)

sábado, 27 de agosto de 2011

Por quem o "Sinos" dobra


Por quem o “Sinos” dobra
por maneco nascimento

Acompanhei, em dois momentos recentes, apresentações do Grupo Sinos de Teatro, coordenado por Jean Pessoa. Com o novo espetáculo do repertórioDona Flor e seu único futuro Marido”, uma ótima proposta de teatro de rua, o Grupo tem construído a própria história com uma liberdade criativa e muito equilíbrio.

Durante a realização da 18ª. Edição do Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo”- Prêmio Zezé Lopes, de 8 a 14 de agosto de 2011, o Grupo apresentou sua obra, na abertura do evento, às portas do Theatro 4 de Setembro. 

Também, no mesmo período, “Dona Flor e seu único futuro Maridofoi visto pelo público do bairro Dirceu Arcoverde, na Praça Aberta do Teatro Municipal João Paulo II, dia 10 e agosto deste, dentro da programação do V Festival de Teatro da Cidade de Teresina.

De última vista, pode-se conferir o Grupo Sinos de Teatro à Praça Aberta do Teatro Municipal João Paulo II, dia 26 de agosto de 2011, às 17h30m, na programação descentralizada do Festival de Teatro Lusófono – FESTLUSO, compondo a Mostra de Teatro de Rua apresentada na cidade. 
 (Aline Moura: dona Flor/foto: acervo)

Espetáculo divertido, próximo das pessoas e detido em tiradas populares e recheadas de histrionismo para a diversão, entretenimento saudável e boas risadas, “Dona Flor e seu único futuro Marido” está a cada dia mais longe do vinagre, haja vista a boa uva colhida estar-se transformando em vinho apurado.

O Grupo Sinos de Teatro sabe por quem deve dobrar-se e já tem uma boa medida da sonoridade que repercute para passar pelo público e deixar reverberados valores artísticos e estéticos. 

Da maquiagem representativa aos figurinos bufões alinhados à cultura de herança ibérica, plantada em terras do nordeste de lentes ampliadas, a peça não deixa a dever linguagem a outras plagas.

Músicos-personagens, Cleverson Rodrigues e Jeff Brito, que interferem e palpitam na cena e compõem os dois Maridos de dona Cansansão (Rafaela Fontenelle), a espaçosa e peituda vizinha de Dona Flor, são graças coadjuvantes indispensáveis ao desenrolar do enredo. Para efeitos de “comèdie-del’arte” e pesquisas atualizadas, nada se perde para atos de gracejos e tipos.

Jean Pessoa, na composição do pretendente a marido, consegue uma passagem franca desde a maquiagem e figurinos até o mais sutil gesto, ou máscara forjada para farsa burlesca que se nos apresenta.

Tem uma intimidade com o espaço físico em que se monta a roda da fortuna à cena. E, tranqüilo, varia entre o exagero e o econômico propício à comédia. Um tipo nada desprezível, concentrado na verdade construída para mentira do prazer de encenar.

Aline Moura, na pecha de solteirona desejosa, é de resultado equilibrado ao confronto com o homem desejado. Seu tipo físico cai-lhe bem para a personagem forjada. 

Transpira uma sintonia muito boa com público, colegas de cena e consigo mesma à manutenção da cena viva. Por vezes, alguns finais de frases se esvaem, talvez por descuido de ouvir-se melhor. Mas há uma energia inteira do começo ao fim da narrativa feliz apresentada. 

Tiradas de diálogos com o santo casamenteiro em que ela o busca pelo vento e o esconder-se atrás de uma moita cenográfica que nada esconde, é de uma lingüística simples e previsível da farsa, para tudo revelar-se sem que o público se libere da cumplicidade proposta.

Eis o teatro do convencimento sem acadêmicos efeitos de convenção. Cena limpa e detida no ator e sua expressão premeditada.

Dobra-se, o Sinos de Teatro, por uma apropriação de teatro de rua e o faz bem. Envolve, encanta, impõe uma natural participação do público e, muito especialmente, detém a atenção da assistência em energia integral enquanto se desenrola a trama.
 O Grupo Sinos de Teatro tem um caminho de tijolos multicor e pisa com segurança na cena pensada. Teatro de emoção e razão equilibrados.


terça-feira, 23 de agosto de 2011

Teatro de tradições


Teatro de tradições
por maneco nascimento

A 4ª. Edição do Festival de Teatro Lusófono – FESTLUSO, aberta às 20 horas e 30 minutos do dia 22 de agosto de 2011, no Theatro 4 de Setembro, uma noite de oficiosos e quebra de protocolo para as palavras do Coordenador do evento, Francisco Pelé. 

Em seu desabafo sobre caminhos de políticas culturais, confirmou um evento que pouca gente acreditava fosse acontecer. Agradeceu os apoios e patrocínio e respondeu sobre uma inquirição de alguém acerca de qual seria o diferencial dessa quarta edição lusófona. Resposta: a ausência do ministério da cultura, envolvido nas três primeiras versões do Festival.

 (elenco de "Olimias"/foto: divulgação)

Novo governo, novas diretrizes políticas, mas, segundo as falas do promotor de arte e cultura local, os oito anos anteriores de descentralização cultural não podem ser esquecidos, nem a produção nacional poderá voltar a fechar-se no eixo Rio/São Paulo. Nas falas de Arimatan Martins, diretor artístico do Grupo Harém de Teatro, essa semana seria de uma nação única, a de língua portuguesa.

No segundo momento da noite, o palco recebeu da Companhia de Teatro Dadaísta, de Luanda/Angola, o espetáculo “Olimias”. Ambientado num cemitério das paixões, a cenografia se complementa com móbiles triangulares a representar, talvez, as três personagens que queimam em paixão proibida.

“Olimias”, adaptado por Hilário Belson, do livro homônimo de Adriano Botelho de Vasconcelos, inicia-se quase como ritos tribais à força da própria cultura que alimenta a cena produzida. Corpos expressivos, dançantes em movimentos singulares e concentrados na energia de tônus medidos, vão desenhando a alegria, angústia e tragédia de inconsciente anunciada.

Um triângulo amoroso vai se delineando sob protestos de um quarto elemento, o velho feiticeiro, o bêbado e louco aos olhos da juventude questionada. Texto de variante entre poético-filosófico, criativo, político e de memória afetiva localizada. Dois jovens rapazes disputam a paixão/amor de uma mulher.

Do release se extrai que “Olimias” é a história de três filhos gerados por uma trama de amor e ódio, criada por pai infiel, fazendo cair uma maldição sobre os rebentos Nguxi, Ndundi e Olimias. 
 A personagem do pai, Tibas, anuncia “da catedral sairá uma filosofia descalça, que vai escolher-vos com seus melhores discípulos porque levam entre mãos uma guerra que lhe podem emprestar”.

Quando a disputa vira guerra, o pai interfere e confessa a paternidade, gerando a “morte” da vida já confusa das personagens. Os símbolos cenográficos já antecipam local em que se desenrola a tragédia, um cemitério ora à margem de suas existências, ora lugar comum ou cova aberta a receber o resultado da constatação da maldição familiar.

A Cia. de Teatro Dadaísta reúne elenco de emoções em contenção, especialmente na manifestação masculina. Simão Paulino (Nguxi) e Aurio António Pereira Quicunga (Ndundi) têm uma desenvoltura corporal de movimentos medidos. Cilana de Fátima da Silva Manjenje (Olimias) também desenvolve uma performance eficaz, de quase dança nova com pés na tradição cultural felicitada.

Hilário Belson (Tibas – o velho) varia comodamente entre a estranheza de maquiagem e corporificação da personagem e a graciosidade festiva da memória da dança d’África.

Teatro de 90 minutos, com Direção Geral de Fernando de Andrade José e Encenação de Hilário Belson, apresenta um empertigado exercício centrado muito no texto e com um cuidado nas falas e inflexões emocionais distribuídas às personagens desdobradas na boca e corpo dos intérpretes. 

Cenografia, Iluminotécnica, Sonoplastia e Figurinos assinados por Sidónio António estão dentro do enredo pensado. A iluminação tem característica, por vezes, fortuita e nervosa em delineio, talvez, do perfil psicológico das personagens.

Até pelo menos os primeiros 60 minutos o espetáculo tem vida equilibrada, depois vai desabando em dramalhão e torna-se de um denso desnecessário, quase um excesso de gordura saturada. 

Depois do excesso de drama, como em cultura ancestral volta-se à festa derramada de alegria e oralidades corporais leves e de característico ascendente e luminar. “Olimias” e a Cia. de Teatro Dadaista, cumprem a cena e vendem seu peixe com dignidade de quem conhece o ato de identidade artística e cultural.

domingo, 21 de agosto de 2011

Musical


 Musical
por maneco nascimento

Uma fábula contemporânea invertida da verdade para a mentira e da mentira para a verdade, este é o enredo de “Lord Gaga – o monstro da fama”, realizado pelo multimídia Franklin Pires.
 (Franklin Pires: "Lord Gaga"/foto:divulgação)

Em uma hora de divertido e paródico conto de perseguição à celebridade, o escritor de texto para o teatro mass media vai desenhando diversão, entretenimento e riso entre o fácil e o crítico reflexivo.

Aos “moldes” de padrão de grandes musicais o autor apresenta mapa cenográfico para uma semi-escadaria lateral com corrimão e outra frontal, ao fundo do palco, redomada por uma nave de luz, às vezes de paradigma “brodway” tupiniquim. Tudo com o propósito de escamotear e dar graça ao enlevado, como material de apreciação.

Os figurinos de Lord Gaga, criativos, midiáticos e funcionais ao proporcional planejado. Numa metalinguagem de ensaio de um show para o qual nunca chega público, a personagem L. Gaga/Franklin Pires vai dando seu showzinho.

 (Flanklin Pires:"Lord Gaga"/foto:divulgação)

Entre uma paródia musicada, do cotidiano memorável da personagem, e a narrativa de sua história reiterada, ou ouvida pelos “partners”, há um destaque para estes últimos como reforço da trama. Entram mudos, mas representam-se bem ao contexto. Dosam os subtextos à lingüística pantomímica para histriônico eficaz.

A personagem narradora vai desconstruindo os figurinos em que reconta sua memória, enquanto também desfaz a imagem erigida à custa da mente “esquizofrênica”, potencializada pelas indústrias culturais e pelo esforço particular de quem sofre do fascínio de celebridade. Um quase (in)consciente auto-roteiro de The Truman Show(O show de Truman).

Franklin Pires descobriu seu toque de Midas e, vencendo os labirintos de Minos, vai forjando seu mundo de Boby com cuidadoso traquejo de quem sabe onde deve por o pé. Texto comum, mas com resposta na veia do público direcional, é determinante ao objetivo a ser alcançado.
 (Franklin Pires: "Lord Gaga"/foto:divulgação)

As coreografias do coletivo que ilustram as paródias aos videoclipes internacionais, de sucessos da irmã gêmea Lady Gaga, estão profissionalmente finalizadas. Uma sincronia para estética, ações e efeitos e corpus dançante ao fundo do lago espesso da linguagem musical dos hits aos grandes centros urbanos.

Não falta ao drama as citações a Bieber, Gaga, Gretchen, Paulinho Paixão, Nayra Lima entre outros, todos envolvidos em caldeirão de pilhérias, paródias e citações variáveis entre o esdrúxulo, o escatológico e o gargalhável.

Autor inteligente, bom leitor e amante do cinema, Pires também enreda homenagens a Aleluia, Gretchen”, “E o vento levou...”, etc. Logo se percebe que há um princípio saudável de fazer-se sucesso no amealho a público específico, mas há + ainda um determinado projeto de consolidar-se por uma linguagem envolvente e de uso de novas tecnologias interagindo com a cena tradicional.

Franklin Pires dança, canta, representa, imita, parodia e interpõe-se entre a fantasia e a realidade com um gracejo de quem não quer esvair-se pelo teatro “amador”. 

  um tratamento profissional desde a transversalidade das novas mídias, bem eficientizadas, até acuidade com maquiagem, figurinos, coreografias, carpintaria cênica e com coletivo de atores em cena.

É um musical enxuto. Com direção coreográfica, jogo de luzes contextualizado, cenas bem costuradas, figurinos apropriados, verdade de cena em marca própria e, especialmente, projeto de ótima defesa.

Franklin Pires e seuLord Gagapraticam um filão às novas sociedades mass média fibrilizada. Envolve, encanta, sugere comoção, cria empatia e convence como linguagem musical de cena bem acabada.
 (cartaz "Lord Gaga"/Franklin Wendel)

Estão de parabéns e a cidade terá que consumir essa obra do diverso contemporâneo. “Doelha a quem doelha!

sábado, 20 de agosto de 2011

Teatro sem “fingimento”


Teatro sem “fingimento”
por maneco nascimento

A Escola Técnica de Teatro “Gomes Campos”, dirigida desde seu nascedouro, por dramaturgo local, Francisco Aci Gomes Campelo (Aci Campelo), fechou resultado de uma turma de retardatários que deveria, em último prazo, concluir formatura agora em 2011. O trabalho, como prova final, ocorreu dia 17 do agosto corrente.

A princípio, a direção da Escola de Teatro “Gomes Campos” havia acertado apresentar os resultados de encenação no Teatro Municipal João Paulo II, mas desistiu no último momento, resolvendo finalizar a atividade específica nas dependências da própria Instituição. Um dos formandos insistiu em apresentar-se também no palco do João Paulo II.

 (ator Zé Dantas Martins/foto de acervo)

Assim, o restante da turma se formou por lá e o aprendiz de feiticeiro, José Dantas Martins (Zé Dantas), dobrou seu resultado, com uma apresentação em palco oficial e outra no estúdio de cênicas daGomes Campos”, para só depois ver-se realizado na práxis oficiosa de discursos, descerramento de placa, etc.

Em se tratando da prova final de Zé Dantas, este concentrou-se em texto da piauiense Isis Baião, recolhido do livro de esquetes "Em Cenas Curtas".

A peça “Espelho, Espelho Meu” que, assim como outros textos da coletânea, traz o discurso bem humorado ao revés do feminismo setentão e suas idiossincrasias do contexto da mulher alçada às próprias liberdades, reitera leveza criativa e inteligência dramatúrgico-literária de carpintaria pragmática à cena moderna.

Para a leitura deEspelho, Espelho Meu”, Zé Dantas apegou-se ao protótipo de uma mulher do contexto mass media, espelhada em sucesso popular a partir da  música que abre e fecha o exercício dramático. Há um esforço em criar identidade imediata com o público pelo “mis-en-scène” que se configura ao figurino, maquiagem e arroubos de coreografias de apresentação.

Ainda não se vislumbra a personagem, especialmente a de riqueza de detalhes sugerida pela autora. Dantas, sem domínio da essência, não conseguiu traquejar a batalha travada entre a mulher e seu alter ego, no enredo dramatúrgico, representado pelo espelho que aponta a falha trágica d’alma feminina, afogada na vaidade.

Teatro de margem, na busca de avançar para o centro da cena, apresenta um ator elegante, bonito, de salto alto, bem maquiado e com uma desenvoltura ainda não completamente teatral. + para show e, em desesperada energia pelo acertar, condiciona a força da personagem em interface da travesti. Perder-se da vaidade individual poderá trazer uma resposta à prática do ator e seu “fingimento”.

Sem risco de vulgaridade, todo o efeito realizado poderá naturalmente transformar-se em cena equilibrada, haja vista, existir um ator em potencial determinado. Mas Zé Dantas tem coragem, fibra e dinâmica a serem melhor empregadas emEspelho, Espelho Meu”, dele para Isis Baião e dela para o ator e sua autonomia.

O exercício aponta um teatro sem “fingimento”, mas uma diretriz a ser explorada. Caso o resultado de Zé Dantas seja o melhor potencializado, fica uma curiosidade acerca de seus colegas que demonstraram suas aptidões escolares na sede da Gomes Campos”.

, emEspelho, Espelho Meu”, de Dantas, uma iniciativa hercúlea em não perder os prazos de se formar. E isto se revela no palco. Sem ter contado, segundo ele, com um acompanhamento + de perto dos formadores da Escola, ainda assim está no lucro.

A teoria tem umafórmula”, mas a forma está no texto do ator e seu método apreendido. Com ou sem a formalidade daGomes Campos”, José Dantas Martins está pronto para buscar seus próprios descaminhos na desconstrução do ato de encenar. A alquimia é do conceito, não do mestre.
 (Zé Dantas: Príncipe/Aninha Carvalho: Fada Esperança Encantado/"O diário da Bruxa"/acervo)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Ensaio 100 ruas


Ensaio 100 ruas
por maneco nascimento

O GrupoArt Dançacomemorou 10 anos de pés dedicados aos linóleos e tablados da dança na cidade. Estreou o ProjetoCem Ruas art dança Dez Anos”, dia 15 de agosto de 2011, às 20 horas, no Theatro 4 de Setembro, para uma plateia considerável de convidados.
(cartaz projeto cem ruas art dança dez anos/acervo: grupo art dança)

Contemplado com o Prêmio FUNARTE de Dança “Klaus Viana”, parcerizou a montagem com a Organização Ponto de Equilíbrio – OPEQ e montou praça rumo ao resultado. 

Segundo a argumentação de proposição em Projeto seria realizar 100(cem) apresentações de um espetáculo garimpado no histórico de linguagem praticado, com variação pelo regional, jazz e contemporâneo de seu repertório.

Em cada bairro, seriam atingidas dez ruas com oCem Ruas art dança Dez Anospara contemplar as gentes simples com cadeiras nas calçadas. Os bairros escolhidos, Acarape, Mafuá, Mafrense, Poti Velho, Matadouro, Aeroporto, Buenos Aires, São Joaquim, Real Copagri e Mocambinho.
(panfleto projeto cem ruas art dança dez anos/acervo: grupo art dança)

Para esse resultado foram aproximadas, segundo o release, técnicas de dança, circo e teatro em musical que mescla o cotidiano do grupo em sua trajetória criativa de uma década na região norte, sede de surgimento da Cia.

A direção geral e coreografias levam a assinatura do coordenador do Grupo, Francisco Moreno, com assistência de direção de Juliana Márcia.

A direção artística, de Valdemar Santos, aponta elementos que se configuram ao objeto de elaboração de olhar cênico-criativo. Os figurinos de Siro Siris preenchem de vida composicional o corpo dançante e os adereços confeccionados por Siro Siris, Grupo Afoxá e Dionisio Brasil complementam o ilustrativo do desenho pensado para a dramaturgia orientada à cena.

O elenco feminino, formado por Deusa Dias, Edmaria Araújo, Isabela Martins, Maiara Castro, Cleide Helena, um gracioso conjunto empertigado e determinante da força da mulher ao preenchimento das marcas equilibradas, embora ainda sem o rompimento da forma pelo orgânico.

O conjunto masculino, da obra apresentada, composto por Alex de Jesus, Eduardo Ananias, Carlos Anderson, Denis Aurélio e Wilamis Portugal, tem corretos e ensaiados movimentos para tônus, por vezes, frágeis ao coletivo da energia do corpo para o street, por exemplo. No regional, quando há uma maior liberdade e alegria de licenças corporais, está + à vontade.

Mas escamoteia o tônus da projeção original desenhado, com gesto de meneio particular quase indispensável. Salvo um ou dois, do conjunto masculino, definem marca corporal para disciplina dançada fora do eixo da idiossincrasia ou vaidade (in)consciente. 

Como nas cênicas o melhor texto interpretado está no corpo do ator/dançarino, quando há dispersão ou relaxamento, sem propósitos dramatúrgicos, comunica com + ruídos.

A iluminação propõe pequenos encantos para política de ruas de memórias afetivas revisitadas. O repertório musical, especialmente do street, parece fugir nas composições de elaborados ao discurso de identidade. Ainda não repercute as falas do corpo local, parece ainda estar de frente para o mar, contemplando o mito que não incorra no complexo de Nazaré.

O coletivo apresenta uma linha sincrônica de gestos, movimentos e desenhos praticados ao ensaio 100 ruas na linha imaginária do simples premeditado. Pressente uma sinestesia que poderá ser incorporada, quando a maturidade, do escolhido, for melhor impregnada na oralidade corporal planejada.

10 anos e dez corpos regurgitam visíveis e invisíveis textos da história que bem começaram a marcar como referência ao original versejado. O Art Dança tem um bom projeto às mãos de corpus social, agora é dar margem ao preenchimento dos vazios, já povoados de presenças, mas ainda não defendidos a toda convicção.


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Partituras na calçada


Partituras na calçada
por maneco nascimento

Foi em noite de 15 de agosto que a Prefeitura de Teresina, através da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves e Semcom, realizou no Adro da Igreja de São Benedito o Concerto erudito-contemporâneo que reuniu a Orquestra Sinfônica de Teresina – OST, o Ockteto Vocal, Luana Campos e Ortiga Jr./Cojobas, em antecipação do aniversário de 159 anos da Cidade.

Em seu requintado e diverso repertório, a OST foi show para enlevar ouvidos e sensibilidades concentradas ao bom som e tons trabalhados.
                                                                     (OST/acervo)
O orgulho da cidade chega pelo grupo de músicos que a cidade produziu à Orquestra Sinfônica da terra cajuína. Caso as melodias das partituras não se tivessem derramado pela calçada e degraus da São Benedito e enleado o vultoso público, ainda assim a OST não seria efeito menor.

O erudito transcendeu a pauta musical das teorias ensaiadas e saltou para o calor da multidão que cercou o espaço construído para receber tamanha virtuose de música em rastro de expansão da terra musical e musicalização refinada para noite de aniversário festejada. 

Quem achava que tinha visto tudo, pasmou quando Ortiga Jr./Cojobas, Luana Campos e Ockteto Vocal juntos e misturados com a Orquestra Sinfônica de Teresina preencheram o céu e o asfalto de luzes dispersadas às melodias transversais ao erudito, pop e rock’ in roll. 

Orquestrou-se uma novidade que encantou até aos velhos, e ainda de pé, casarões no entorno da igreja São Benedito, Palácio do Karnak, Praças da Liberdade e São Benedito.

Um assomo de beleza e talentos equilibrados para rocks e pops e clássico-eruditos e toda sorte de manifestação apaixonada para a música apresentada ao público que concorreu àquela noite.

Quando Luana Campos abriu a boca em solo de Pink Floyd foi como memórias mitológicas de argonautas que, ao esquecerem-se de tapar ouvidos com cera de abelha, não conseguiram evitar a sorte de serem atraídos na armadilha da canção de nereidas. 

Luana Campos provou que não só é a novidade que a cidade espera, mas o melhor registro vocal que Teresina já produziu. A voz da solista deságua sobre os mortais causando desejo de lento reverberar.

Belo presente para Teresina que, em tenra idade, comemora seus arroubos de aniversariante de média cidade em sonho de busca da metropolização. Com + atitude política e melhor olhar ao cidadão talvez durma princesa infante e acorde imperatriz/rainha dos canteiros verticais arranhando nuvens de metrópole versejada.

A noite de aniversário que começou com João Cláudio e seu humor econômico, mas venal, foi evoluindo crítico-construtivo ao puxão da orelha do administrador público e finalizou-se com uma festa de arromba às vezes da OST, Ockteto Vocal e Cojobas e às vozes incomuns de Ortiga Jr. e da bela da noite, Luana Campos. A cidade não foi a mesma depois daquele concerto para Teresina.
 (fotos concerto para Teresina/acervo: site o melhor do piauí)

 Variando entre o rock e o erudito, Luana Campos esteve muito bem acompanhada e, com aquele rostinho de vestal, repercutiu o mito das Nereidas* e encantou homens, mulheres, crianças e até o mundo invisível em redor do show armado para noite de 15 de agosto.

Teresina agradece ao maestro Aurélio Melo por possibilitar encontro de musicalidade ímpar.

(*) Nereidas ou Nereides. Filhas de Nereu e de Dóris. Nereu compartilhava com elas as águas do Mar Egeu. As Nereidas eram veneradas como ninfas do mar, gentis e generosas, sempre prontas a ajudar os marinheiros em perigo.
Por sua beleza, as Nereidas também costumavam dominar os corações dos homens. São representadas com longos cabelos, entrelaçados com pérolas. Caminham sobre golfinhos ou cavalos-marinhos. Trazem à mão ora um tridente, ora uma coroa, ora um galho de coral. Algumas vezes representam-nas metade mulheres, metade peixes.
(Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre. Acesso 17/08/2011, 19h)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Tempo de teatro


Tempo de teatro
por maneco nascimento

Corrida uma semana, desde que aberta ao 18º. Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Prêmio Zezé Lopes e ao 5º. Festival de Teatro da Cidade de Teresina, o último domingo, dia 14 de agosto de 2011, a partir das 18 horas, na Praça Pedro II, às portas do Theatro 4 de Setembro, foi hora de finalização de um bom tempo de teatro, com show da Banda Theregroove e Premiação dos concorrentes.

Pelo 4 de Setembro, durante o concurso de monólogos, dramas e comédias, tragédias e novas licenças poéticas à dramaturgia praticada foram a lei da oferta e das procuras do ator na busca de sua personagem.
 (Claudiana Cotrim: "Medeia"/foto: acervo)

Medéia”: Claudiana Cotrim//Urias de Oliveira (RJ); “Esperando na Rodô”: Reinaldo Facchini//Marco Pavani (SP); “Rainha do Rádio”: Lari Sales//Lari Sales (PI); “O Miolo da Estória”: Lauande Aires//Lauande Aires (Ma); “Balanço”: Bruno Peixoto//Edson de Oliveira (Go) e “Boi”: Guido Campos//Hugo Rodas (Go), um banquete de espetáculos pelas experiências da cena vicejada.
 (Bruno Peixoto: "Balanço"/foto:Layza Vasconcelos)

No palco do Teatro Municipal João Paulo II, sempre às 18 horas, o teatro da cidade se representou bem. Dia 09/08, o espetáculo de dança/teatroEla”, com direção e concepção dramatúrgica de João Vasconcelos e direção de coreografia de Valdemar Santos, encantou pelas imagens de memórias sociais da mulher de ontem e hoje. Um belo projeto de cênicas.
 ("Ela", de João Vasconcelos e Valdemar Santos/foto: OPEQ)

Dona Flor e seu único futuro Marido”, do Grupo Sinos de Teatro, com direção de Jean Pessoa, foi a vedete festejada. Numa linguagem de teatro de rua encantou o público da Praça Pedro II, na abertura do FESTMONÓLOGOS, como também o que prestigiou o espetáculo, dia 10/08, no Teatro João Paulo II.
 ("Dona Flor e seu único futuro Marido"/foto: acervo)

O infantilSenhor Rei, Senhora Rainha”, do Grupo Raizes de Teatro, dirigido por Lorena Campelo para texto de Benjamin Santos, um exercício divertido, em processo de maturidade de linguagem, para a platéia de infantes. As crianças do bairro Dirceu conferiram graça e humor pelo dia 11 de agosto.

Para fábulas e encantos de títeres e mamulengos, dia 12/08, “O desejo de Catirina”, do Biboca de Teatro, com direção de Wellington Sampaio, um gracejo eficiente da ânima de bonecos para a temática do bumba-meu-boi. O calor de alegria recuperando risos de adultos e crianças.

E fechando a semana de teatro da cidade, “O diário da Bruxa”, do Grupo Proposta de Teatro, direção assinada por Roger Ribeiro, reiterou a prática local de teatro à representação, com total efeito de fantasias, lúdico e ciência da cena. A boa prática cênica por aqui investida.
 (Aninha Carvalho, a fada d"O diário da Bruxa"/foto: Amana Dias)

A fábula homenageou Teresina e, especialmente, o Teatro Municipal João Paulo II, em seu aniversário de 6 anos de vida, completados dia 13 de agosto de 2011.
 (Zé Dantas, Aninha Carvalho, um infante e Vitorino Rodrigues/foto: Amana Dias)

Em tempos de teatro, pode-se conferir grandes atores e atrizes, belas montagens com suas delicadas luzes e virtuose dramatúrgicas feitas para brilhar e reinventar o ato fingidor de cada ator.
(Reinaldo Facchini: "Esperando na Rodô"/foto: acervo)

Caso o homem não tivesse inventado o teatro, este teria se auto-gerado. O teatro dessa forja que aquece a máquina das emoções e sentimentos mortais se estabelece pela magia das sombras e luzes da natureza humana investigada e, pelo encanto do fingimento, restitui a epifania de atuação do indivíduo coletivizado.
(Lauande Aires: "O Miolo da Estória"/foto: acervo)

Em seus festejos de aniversário dos 159 anos, premiada é a cidade de Teresina, por sediar a 18ª. Edição do Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Prêmio Zezé Lopes e o 5º. Festival de Teatro da Cidade.
 (Guido Campos: "Boi"/foto: Layza Vasconcelos)

O maior Prêmio, do ator ao seu ato completo, será grande e terá + elaborado foco quando compreendida a encenação, voltada ao seu “real” fazer teatral. Todos os convidados e participantes dessa semana de teatro saem vitoriosos, em tempo da melhor representação à mímesis de Baco.


domingo, 14 de agosto de 2011

Aboio teatral


Aboio teatral
por maneco nascimento

Vindo de Goiânia, tangendo um boi feito homem e um homem para as vezes do boi, Guido Campos fechou a semana de espetáculos concorrentes ao 18º. Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Prêmio Zezé Lopes, dia 13 de agosto de 2011, na terra apropriada do Theatro 4 de Setembro, com virtuose de lição de amor bem aprendida. 

Com “Boi”, em 50 minutos de duração e direção de Hugo Rodas, o ator Guido Campos inicia, para tempos de apresentação, recepção e prólogo de espetáculo, uma interação variável entre carnavalização de abre atos e provocação do público ao incentivo de integrá-lo à “farra” do boi.
 (Guido Campos: "Boi"/foto: Layza vasconcelos)

O texto que abre a cena, propriamente, é o do primeiro pé plantado no curral. Faz-se em caminho de luz no labirinto do mito de homem feito bicho. A partir daí o “minotaurovai desvendando seu pasto, seu rancho margeado de riacho, sua rotina de escuridão e luz, sua vereda de perdição e hora da transmutação redentora do homem coisificado à sorte do sentimento de própria escolha.

A cenografia, uma mesa para banquetes e signos, dois tecidos (o vermelho e o preto), um berrante, um punhal, duas máscaras do boi de tradição e ruptura e um corpo falante ornado de um chocalho, toda prática.
(Guido Campos: "Boi" e seu berrante/foto: Layza Vasconcelos)

A luz do espetáculo parece mimetizar-se com a do ator. Sai dos pinos, mas forja-se irradiada das patas do ruminante. A construção das personagens de Guido Campos se unifica para quase mesmo padrão. Por vezes as vozes de Agemiro, o amante de bois e currais, vociferam sentimentos num pulso estridente, mesmo para a linha de margem das conversas agressivas de currais e aboios.

A máscara da velha mãe, da mulher Das Dores, da Dos Anjos, pretendente a casamento e a do próprio Zé Agemiro, ora se confundem, ora se misturam e outras + se mimetizam para traquejos vocais similares, saídos da cornucópia de ressonância.

A + das vezes a energia centrada do ator e seu método caem na armadilha da caricatura e cacoetes disfarçados de verdade cênica, nem sempre a parecer risível, mas para cumprir uma mímesis das memórias afetivas.

Encenação de energia inteira, com todos os alinhavos dentro da mesma corrente de mapeamento dramático. Ponto alto do espetáculo, as coreografias mágicas de construção das trocas de roupas da mulher Das Dores, enquanto cobra ciúme do marido Agemiro que sofre de fascínio pelo boi preferido.
 (Guido Campos: "Boi" em sua Das Dores/foto: Layza Vasconcelos)

Adereços ricos e simples, uma cabeça de boi cego, a do minotauro, uma sandália de borracha feito pata, um punhal para sangue e areia e a cabeça colorida em vermelho com olhos negros que planta-se no peito do homem assumido como boi no ápice da encenação do bicho-homem mitificado.

A direção dramatúrgica, inteira, enceta uma certa rota de condicionamentos que se eficientizam também pela cartografia coreográfica, pelo calor de paixão à cena ruminada e pela marca de identidades dos contextos cênicos tatuados de sabores humanos.

Sondado do universo rural do ciclo do gado do centro-oeste, mas de qualquer campo de criação, o espetáculo “Boi”, de Hugo Rodas e Guido Campos, na forma construtivista da cena desconstrói memórias e reinventa novas leituras ao velho sonho do teatro brasileiro, o ator e a cena.

Vende a carne doBoi” e num aboio teatral acerta para o mítico, para o lúdico e para a ciência aberta da dramaturgia de laboratórios experimentados. Teatro para placebo, mas também para efeito de cura pajelada.